terça-feira, 25 de junho de 2013

IV SIMELP - PROGRAMAÇÃO COMENTADA

03 DE JULHO (QUARTA-FEIRA) CENTRO DE CULTURA E EVENTOS DA UFG

MESA-REDONDA 
"Gramáticos do português: “Defino minha/nossa obra gramatical como..."
14h - 16h - Sessão I
Maria Helena Mira Mateus (UL/ILTEC)
Linguista portuguesa e Professora Catedrática Jubilada de Linguística na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa(FLUL), Maria Helena Farmhouse da Graça Mira Mateus nasceu em Carcavelos, concelho de Cascais, a 18 de agosto de 1931. Licenciou-se em Filologia Românica, em 1954, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo-se doutorado vinte anos mais tarde, em 1974, em Linguística, na mesma universidade. Em 1978, concluiu a Agregação em Linguística Portuguesa também na FLUL. 
INTERVENÇÃO SOBRE GRAMÁTICA DA LÍNGUA PORTUGUESA
Tendo presente a proposta de organização da intervenção na mesa redonda sobre gramática(s) do português, apresentarei, em primeiro lugar, um histórico da Gramática da Língua Portuguesa, focando as suas bases teóricas e o desenvolvimento do escopo global e dos objetivos específicos, desenvolvimento que foi ocorrendo em inter-relação com a participação de novas autoras no decurso dos vinte anos de existência da obra. A preservação das perspetivas teóricas que desde o início singularizaram a Gramática da Língua Portuguesa compatibilizou-se com atualizações de especialidade e abriu-se para novas vertentes de investigação sobre o português. A difusão da utilização da obra, sobretudo no meio universitário, trouxe consigo o enriquecimento que sobrevém da vivência e da experimentação de hipóteses e propostas da investigação teórica quando aplicadas sobre o objeto da pesquisa. Tratando-se de um estudo de duas faces – resultados da investigação 16 sofisticada e disponibilização, a um público informado mas não especializado, de análises das produções reais dos falantes – as apresentações públicas de um trabalho desta natureza devem ser vistas como contribuição para o desenvolvimento da consciência linguística dos falantes. Exemplificando com a análise de um aspeto caracterizador do português, procurarei demonstrar a capacidade de explicitação da nossa opção teórica e dos dados que permitem a sua aplicação. 
Evanildo Cavalcante Bechara (ABL/UERJ)

Evanildo Cavalcante Bechara nasceu  no Recife (PE), em 26 de fevereiro de 1928. Professor titular de Língua Portuguesa, Linguística e Filologia Românica da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques, de 1968 a 1988. Em 1971-72, exerceu o cargo de Professor Titular Visitante da Universidade de Colônia (Alemanha) e de 1987 a 1989 igual cargo na Universidade de Coimbra (Portugal). Professor Emérito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1994) e da Universidade Federal Fluminense (1998). Quinto ocupante a Cadeira nº 33, eleito em 11 de dezembro de 2000, na sucessão de Afrânio Coutinho e recebido em 25 de maio de 2001 pelo Acadêmico Sergio Corrêa da Costa. Membro titular da Academia Brasileira de Filologia, da Sociedade Brasileira de Romanistas, do Círculo Linguístico do Rio de Janeiro. Membro da Société de Linguistique Romane (de que foi membro do Comité Scientifique, para o quadriênio 1996-1999) e do PEN Clube do Brasil. Sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Internacional da Cultura Portuguesa. Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra (2000). (http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=504&sid=311)
COMO DEFINO MINHA GRAMÁTICA? 
Nascida por uma proposta da Cia Editora Nacional, para rever e atualizar o livro didático de Eduardo Carlos Pereira de maior circulação no país – Gramática Expositiva (Curso Superior) –, acabou a Moderna Gramática Portuguesa substituindo a excelente obra do autor paulista. Assim, em 1961, saiu a 1ª edição da MGP procurando trazer várias novidades que a linguística estrutural estava introduzindo no Brasil pela competente lição de Mattoso Câmara Jr. Ao lado da renovação de muitos conceitos, a MGP procurava também arrolar uma série de fatos da língua nem sempre bem conduzidos e resolvidos pela tradição purista de português brasileiro. A obra reflete também a boa lição de sintaticistas do porte de M. Said Ali e Mário Barreto no Brasil, ao lado de Epifânio Dias, em Portugal. A boa aceitação por parte de professores e alunos de todos os níveis justifica a permanência até hoje da MGP na bibliografia didática. Em 1999, ao sair a 37ª edição, a MGP recebeu o contributo teórico e descritivo de novos linguistas, entre os quais cabe especial relevo a Eugenio Coseriu, Herculano de Carvalho e AlarcosLlorach. 
Mário Perini (UFMG/CNPq)
É atualmente professor no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Minas Gerais. Foi professor na PUC-Minas e na UNICAMP e professor visitante nas universidades de Illinois e do Mississippi (EUA). É autor de doze livros, dentre os quais Para uma nova gramática do português; Gramática descritiva do português; Sofrendo a gramática (Ática),Modern Portuguese, Talking Brazilian; Modern Portuguese – A Reference Grammar (Yale University Press). Publicou na Parábola Editorial: A língua do Brasil amanhã e outros mistérios (2004); Princípios de linguística descritiva (2006); Estudos de gramática descritiva: as valências verbais (2008); Gramática do português brasileiro(2010). 
(https://ssl4100.websiteseguro.com/parabolaeditorial)
DEFINO MINHA OBRA GRAMATICAL COMO A TENTATIVA DE ENCONTRAR 
RESPOSTA ÀS PERGUNTAS: POR QUE ENSINAR GRAMÁTICA? QUE GRAMÁTICA 
ENSINAR? 
Por que ensinar gramática? 
A justificativa tradicional da presença da gramática na escola é que ela seria um dos instrumentos que facilitam a aquisição da língua padrão escrita. No entanto, um exame dos fatos mostra que essa justificativa é falsa: aprende-se a língua padrão através da prática, principalmente da leitura e da escrita, não através dos estudos gramaticais. Sustento que a gramática merece lugar no currículo como uma disciplina científica, ao lado da biologia, da geografia e da química. Por conseguinte, o ensino de gramática deve seguir as linhas gerais da educação científica, enfatizando a observação, a formulação de hipóteses, o raciocínio lógico – exatamente o que o ensino tradicional não faz. 
Que gramática ensinar? 
Outra grande deficiência de nosso ensino gramatical é a falta de adequação empírica: tanto pela preocupação normativa quanto pela falta de respeito aos fatos da língua. Em meus trabalhos de gramática procuro retratar a língua portuguesa do Brasil tal como se apresenta na fala espontânea do povo (o português brasileiro falado) e na imprensa atual (a língua padrão do Brasil). No último meio século os estudos linguísticos chegaram a uma compreensão muito mais avançada da estrutura do português do que a que se encontra nas gramáticas escolares. A imagem da língua representada nas gramáticas escolares é incorreta, mal dirigida em seus objetivos e deficiente em seus fundamentos teóricos. Se a gramática é uma disciplina científica (como defendo), é essencial que se promova uma reformulação de seu conteúdo, levando em conta os resultados da ciência da linguagem. 

Maria Helena de Moura Neves (UPM/Unesp/CNPq)
É licenciada em Letras (em Português-Grego e em Alemão) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (1970 e 1974, respectivamente), doutora em Letras Clássicas (Grego) pela Universidade de São Paulo (1978) e livre-docente (Língua Portuguesa) na Universidade Estadual “Júlio de Mesquita Filho” (1984). É bolsista de Produtividade em Pesquisa - nível IA do CNPq. É professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da UNESP - Araraquara, atuando na Pós-Graduação em Letras. É coordenadora do grupo de pesquisa Gramática de Usos do Português do CNPq e Membro dos grupos de pesquisa: Grupo de Estudos Lexicográficos, do CNPq, sob direção do Prof. Francisco da Silva Borba e Gramática do Português Falado, do CNPq, sob direção do Prof. Ataliba Teixeira de Castilho. É coordenadora da equipe que elabora o Volume de Sintaxe I da Consolidação da Gramática do Português Falado, sob direção do Prof. Ataliba Teixeira de Castilho. É coordenadora, juntamente com Daisi Malhadas e Maria Celeste Consolin Dezotti, do Dicionário Grego-Português, em 5 volumes (1º Vol publicado; 2º Vol. no prelo). (http://www.mackenzie.br/pg_cd_letras_maria_helena.html)
GRAMÁTICA DE USOS DO PORTUGUÊS. A GRAMÁTICA DO PORTUGUÊS 
REVELADA EM TEXTOS.
Apresento duas gramáticas (Neves, 2011 e Neves, 2013, no prelo), as quais mantêm a mesma base teórica (funcionalista) e a mesma fundamentação em usos reais da língua. A segunda dessas obras gramaticais organiza-se particularmente em lições dirigidas a uma aplicação escolar, baseando-se, na medida do possível, em textos completos ou grandes excertos. Ambas as obras têm o mesmo ponto de partida, que se prende, numa indicação geral, a estes princípios funcionalistas: (i) extensão da gramática a processos que atingem o nível do texto, avaliado como produção discursiva, ficando incluídas, na raiz, as determinações da interação; (ii) estabelecimento dos fatos de gramática em uma componibilidade em que se integram os componentes sintático, semântico e pragmático; (iii) avaliação dos fatos gramaticais em ligação com as funções da linguagem. Nessa linha, as duas obras têm a mesma diretriz de organizar os fatos de gramática e as categorias gramaticais (relacionadas às funções gramaticais) a partir dos processos básicos de constituição do enunciado. A referência a classes e funções não é entendida como atribuição de chancelas fixas a determinados itens da língua, pelo contrário prevê-se um espaço muito grande de fluidez categorial, ligada a indefinições e até a superposições funcionais exigidas na ativação da linguagem. Assume-se que o complexo que representa a atividade linguística dos falantes se resolve numa duplicidade básica: submissão a restrições e liberdade de escolha. Joga-se com a capacidade que os falantes têm não apenas de acionar a produtividade da língua (jogar com as restrições), mas também – e primordialmente – de proceder a escolhas comunicativamente adequadas (operar as variáveis dentro do condicionamento ditado pelo próprio processo de produção). 
16h - 16h10 - Intervalo
16h10 - 18h50 - Sessão II
José Carlos de Azeredo (UERJ/CNPq)
José Carlos Santos de Azeredo é doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde lecionou língua portuguesa de 1970 a 1996. Hoje, é professor adjunto do Instituto de Letras da UERJ. É autor de Iniciação à Sintaxe do Português (1990), Fundamentos de Gramática do Português (2000) e de Ensino de Português: Fundamentos, Percursos e Objetos (2007), todos publicados por J.Zahar Editor. (http://publifolha.folha.com.br/catalogo/autores/1068/).
GRAMÁTICA HOUAISS DA LÍNGUA PORTUGUESA 
O objeto da Gramática Houaiss da língua portuguesa é a variedade padrão escrita do português em uso no Brasil. Identificamos assim um conjunto sistemático de formas e construções da língua 
portuguesa empregadas razoavelmente em comum por escritores / jornalistas / autores brasileiros, desde a segunda metade do século XIX até os dias atuais, em obras literárias, técnicas, científicas e ensaísticas em geral, assim como na maior parte dos textos impressos nos principais jornais e revistas dos grandes centros urbanos contemporâneos. A fixação do início deste período não é arbitrária; é na segunda metade do século XIX, no contexto histórico do Romantismo, que ganha força o debate sobre a identidade da expressão literária brasileira, que nos séculos anteriores tinha sido uma réplica do padrão lusitano. Ainda que do ponto de vista estritamente linguístico se trate de “uma variedade da língua entre outras”, importa reconhecer que ela se distingue das demais por sua condição de ‘modelo de uso’ de âmbito nacional e, em virtude dessa condição, por ser uma competência basicamente adquirida pela intervenção da escola e pela via da leitura. Nosso objetivo vai um pouco além da aferição de um uso e sua descrição. Enfatizando sempre o dom da palavra como traço singular da espécie humana, empenhamo-nos em refletir sobre o funcionamento da linguagem verbal no seu tríplice papel (a) de forma de organização do conhecimento (conceptualização e categorização da experiência do mundo), (b) de meio de codificação do conhecimento em enunciados/textos (expressão), e (c) de forma de atuação interpessoal (comunicação). A gramática não é evidentemente o único, mas é o mais sólido suporte dos papéis explicitados nos itens ‘a’ e ‘b’.

Ataliba Teixeira de Castilho (UNICAMP/USP/CNPq)


Licenciado em Letras Clássicas em 1959, Especialização em 1960, doutor em Linguística em 1966, livre-docente em Filologia e Linguística Portuguesa em 1993, professor titular em 1996 pela Universidade de São Paulo. Ex-professor titular da Universidade Estadual Paulista, campus de Marília (1961-1975), então CESESP. Professor titular aposentado da Universidade Estadual de Campinas (1975-1991) e da Universidade de São Paulo (1996-2006). Atualmente é professor senior na Universidade de São Paulo e professor colaborador voluntário na Universidade Estadual de Campinas. Coordenou os seguintes projetos coletivos de pesquisa: Projeto NURC/SP (1970-1988), Projeto de Gramática do Português Falado (1988-2011), Projeto para a História do Português Brasileiro, equipe de São Paulo, de 1995 a 2011, quando foi substituído a seu pedido. Editor geral da obra coletiva História do Português Brasileiro, 5 volumes, em andamento. Membro do corpo editorial das seguintes revistas: Alfa (Revista de Linguística da UNESP), Linguística (revista da Associação de Linguística e Filologia da América Latina), Revista do GEL, Cadernos de Estudos Lingüísticos (Unicamp), Filologia e Linguística Portuguesa (USP). Tem desenvolvido pesquisas na área de Linguística do Português, com ênfase nas seguintes áreas: descrição da língua falada, sintaxe funcionalista do português brasileiro, história do português brasileiro, análise multissistêmica do português brasileiro. É assessor linguístico do Museu da Língua Portuguesa desde 2006. (http://lattes.cnpq.br/8995142541264871)

DEFINO MINHA OBRA GRAMATICAL COMO... 

A Nova Gramática do Português Brasileiro, publicada em 2010, procura dar voz às dezenas de linguistas brasileiros que vêm descrevendo e historiando essa modalidade da língua portuguesa, nos últimos 40 anos. Canalizei para ali suas descobertas, efetuadas no contexto de projetos coletivos, a que agreguei minha experiência de 50 anos de magistério. Os dados analisados procedem da língua escrita e da língua falada praticada no Brasil. Eles foram dispostos a partir de uma perspectiva teórica própria, que venho desenvolvendo desde 1998. O trabalho destina-se a alunos de Letras e a professores de Português do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio. Em 2012, juntamente com Vanda Elias, publiquei uma versão resumida, intitulada Pequena Gramática do Português Brasileiro. 
Marcos Bagno (UnB)
Marcos Bagno é professor da Universidade de Brasília (UnB). Escritor, poeta e tradutor, se dedica à pesquisa e à ação no campo da educação linguística, com interesse particular no impacto da sociolinguística sobre o ensino. Mantém colunas mensais nas revistas Caros Amigos e Carta na educação; é constantemente convidado a fazer conferências e a ministrar cursos no Brasil, na Argentina, no Urugai, no Paraguai, na Espanha e no Canadá. Tem diversos livros publicados, entre os quais se destacam A língua de Eulália – novela sociolinguística; Preconceito linguístico – o que é, como se faz; Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa; Língua materna – letramento, variação e ensino; A norma oculta – língua & poder na sociedade brasileira; Nada na língua é por acaso – por uma pedagogia da variação linguística.
DEFINO MINHA OBRA GRAMATICAL COMO... 

Defino minha gramática como uma tentativa de preencher as evidentes e graves lacunas do currículo atual dos cursos de Letras no Brasil. As pessoas que hoje se formam para exercer a profissão docente não recebem a formação adequada para desempenhar essa exigente tarefa. Por isso, abordo em minha gramática diversos aspectos que ou não são tratados nos cursos ou são tratados de modo muito superficial. Daí a presença, em minha gramática, de uma epistemologia da Linguística, de uma abordagem detalhada dos processos de mudança linguística, de uma história do português brasileiro desde o galego até os dias de hoje, de uma abordagem do nosso léxico desde as raízes indo-europeias, entre outras coisas. Além disso, não é só uma gramática descritiva, é também uma gramática propositiva: digo explicitamente o que se deve e o que não se deve ensinar na escola, argumento em favor da admissão plena e tranquila das muitas formas inovadoras do português brasileiro que já estão fixadas como regras em nossa língua e que, infelizmente, continuam sendo alvo de perseguição por parte dos puristas.

Comentaristas: 
Marli Quadros Leite (USP/CNPq): “O curso dessas gramáticas (visão histórica)”: Tradição, invenção e inovação em gramáticas da língua portuguesa - séculos XX e XXI
Francisco Platão Savioli (USP e Anglo): “O percurso das (dessas) gramáticas nas ações escolares”
Coordenadora: Vânia Cristina Casseb Galvão (UFG/CNPq)

 Esta é uma mesa histórica, de grande importância histórica. Trata-se da reunião de conceituados gramáticos e linguistas, que há décadas vêm propondo gramáticas para a língua portuguesa, com diferentes funções e distintas perspectivas. São apresentadas reflexões acerca da gramática da língua portuguesa e de seu ensino na educação básica. São as mais importantes referências bibliográficas da área, reunidas em uma discussão aberta, reflexiva e avaliativa.


19h - Lançamento de livros e sessão de autógrafos
Local: Centro de Cultura e Eventos da UFG

segunda-feira, 17 de junho de 2013

IV SIMELP PROGRAMAÇÃO COMENTADA

02/07, ÀS 10h -11h30 - CONFERÊNCIA DE ABERTURA 



A linguística e a política linguística: aspectos variáveis em português

Anthony Julius Naro (UFRJ/CNPq)
Maria Marta Pereira Scherre (UnB/UFES/UFRJ/CNPq)
Coordenadora: Tânia Ferreira Rezende (UFG)

Três objetivos norteiam nossa fala: apresentar resultados da pesquisa sociolinguística; politizar a noção de adequação linguística; desencadear a discussão sobre uma lei contra o preconceito linguístico. Nossos principais resultados são sobre a concordância verbal de número de terceira pessoa na fala moderna do Rio de Janeiro e na escrita do português arcaico. Também examinamos a concordância verbal com os pronomes nós e a gente no Rio de Janeiro. Os resultados focalizados, embora relativos a fenômenos variáveis estigmatizados, revelam heterogeneidade linguística ordenada. Argumentamos que a noção de adequação linguística, como uma via de mão única, pode ser tão perversa quanto a noção de erro linguístico de base social e apresentamos reflexões sobre a polêmica causada recentemente pelo capítulo “Escrever é diferente de falar” do livro didático do MEC Por uma vida melhor. A discussão, a nosso ver, revela que a política linguística deve desencadear lutas por lei específica contra o preconceito linguístico, à luz de outras leis contra outros tipos de preconceito, como os de etnia ou de orientação sexual. A consciência do respeito à fala do outro e à própria fala é acima de tudo uma questão de cidadania, que não anula o direito inalienável de falar e escrever múltiplas variedades. 


NESTA CONFERÊNCIA, ESTÁ EVIDENTE A PROPOSTA DE UM DEBATE EM TORNO DOS DIREITOS DAS MINORIAS. CONFERÊNCIA DE SUMA IMPORTÂNCIA CIENTÍFICA, SOCIAL E POLÍTICA, TRAZ NOVA DIMENSÃO DE ANTIGOS PROBLEMAS, MOSTRANDO O LADO E O PAPEL POLÍTICO E POLITIZADOR DA SOCIOLINGUÍSTICA. PARA ALÉM DA DEPREENSÃO DE REGRAS E DA DESCRIÇÃO DE PADRÕES VARIÁVEIS DE USO DO PORTUGUÊS, ENFOCA E RETIRA AS MÁSCARAS QUE COBREM OS PRECONCEITOS DISFARÇADOS DE CONCEITOS CIENTÍFICOS E CATEGORIAS DE ANÁLISE. O TEMPO É DE REVELAÇÃO, DE DESVELAÇÃO, NÃO TEM MAIS COMO IGNORAR OS DIREITOS CONQUISTADOS A DURAS PENAS E O DIREITO LINGUÍSTICO É UM DELES.


Entre 11h30 e 12h acontece a I Sessão de apresentação de pôster (veja lista no site), sob a coordenação da Profª Drª Eliane Marquez da Fonseca Fernandes (UFG)

Entre 14h e 18h30, acontecem os simpósios (veja programação específica no site), na Faculdade de Letras/UFG, nos blocos “Bernardo Élis” e “Cora Coralina”.

quinta-feira, 2 de maio de 2013


Delírios, alucinações ou apenas sonolência

http://geografiaetal.blogspot.com.br/2010/08/eurasia.html

      Estávamos na aula de Geografia eu acho, ecoava sonora e meio estrondosa a voz de dona Rosalina, explicando a matéria, que haveria de cair na prova. Ela falava dos continentes e das reterritorializações, das galáxias, manchas negras neegras neeeeeegras... plaft!  
"Nossa! Deixa eu participar da aula, tão interessante essa aula. Uma pergunta cai bem."
         – Professora! Dona Eurásia!
         Gargalhada geral.
         

domingo, 10 de março de 2013

Pombinha, pombinhas...

...é loura, muito pálida, frágil e delicada, com uns modos de menina de boa família; é a flor do cortiço. Chamam-lhe Pombinha.


Maria da Penha foi espancada de forma brutal e violenta diariamente pelo marido durante seis anos de casamento. Em 1983, por duas vezes, ele tentou assassiná-la, tamanho o ciúme doentio que ele sentia. Na primeira vez, com arma de fogo, deixando-a paraplégica, e na segunda, por eletrocussão e afogamento. Após essa tentativa de homicídio ela tomou coragem e o denunciou. O marido de Maria da Penha só foi punido depois de 19 anos de julgamento e ficou apenas dois anos em regime fechado, para revolta de Maria da Penha com o poder público. 



Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal, o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras providências. 

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>. 
Acessada em: 5 mar. 2013.



A moça é preparada para se casar com um bom partido e ser uma boa esposa: zelosa, fiel e amante. 

- Você não precisa concordar com seu marido, basta deixá-lo pensar que concorda; você toma todas as decisões, mas deixe ele pensar que é ele quem está no comando; diga sempre o que ele gosta de ouvir e faça sempre o que ele gosta que faça; seduza seu homem, manipule-o, faça ele brigar e até matar ou morrer por você; faça TUDO pra segurar seu marido; assim, nunca precisará trabalhar para sobreviver, terá vida boa e ele sustentará até os seus luxos.

- Como fazer para suportá-lo e conseguir estar sempre bem ao seu lado?

- Simples, tenha sempre ao alcance um jovem e fogoso amante, nunca o mesmo, claro, troque sempre, a mesmice mata uma mulher. E se ele desconfiar ou descobrir, negue, ofenda-se, chore, chore muito, os homens são bobos, moles, e se derretem diante das lágrimas falsas de uma meretriz santinha que finge bem.

Os homens entram no jogo e se derretem pelas santinhas doces, meigas e chorosas. E tiram muito proveito da situação, claro! Com muito autoritarismo, chegando ao ponto de espancar e matar, por eles e não por elas. Atualmente, está fora de moda e é politicamente incorreto ser machista e maltratar mulher, o sexo frágil, além de ser crime. Os homens, agora, evoluíram, deixando de ser macho bruto para ser macho fino e sofisticado. A tortura que praticam contra a mulher é a tortura emocional e psicológica. Coisa pouca! No lugar de ficarem paraplégicas, as mulheres do século XXI sofrem de transtornos mentais e seus maridos, de vilões passam a vítimas. Isso é urbanidade!

Apesar disso, há mulheres que continuam sentadas no conforto da manipulação, talvez por necessidade, talvez por vício. Generalizam e se dissimulam pelo mundo a fora, como se estivessem na intimidade de suas alcovas. Essas são pálidas, frágeis, delicadas, com ares de moças de boa família - é claro que aqui e ali, não resistem e se permitem pequenas fraquezas, entregando-se ao melhor amigo de seu marido, geralmente, um compadre (tão corriqueiro isso), assediando um rapazinho bonitinho (mulheres nunca são acusadas de assédio sexual mesmo, êta mundo machista, né!), dando em cima do marido de uma amiga (ah, coitada, ela já tá cansada dele, vou dar uma ajudinha!) e, por aí vai. E o marido brigando com o mundo para defendê-la, porque ela é uma mulher tão ingênua, fala baixo, devagar e é tão ca ri nho sa... booooa!!!

A mulher-Pombinha, pálida, frágil, "oblíqua e dissimulada", odeia as feministas, odeia mulher segura, independente e dona de si. Mulher tem de ser feminina, delicada, tem de ser protegida, resguardada e muito, muito dissimulada, chorar nos momentos oportunos e envenenar sempre, fazer fofocas, lançar intrigas: isso sim é ser mulher! Essa nunca é maltratada, jamais é torturada, é tratada como uma princesa. A mulher-Pombinha é homofóbica, afinal todo ser do sexo masculino tem a obrigação de desejá-la e todo ser do sexo feminino tem a obrigação de ser igual a ela, embora a inveja e a disputa lhe provoquem atitudes pouco recomendáveis a uma dama.

Pombinha, a personagem intelectualmente evoluída de Aluísio Azevedo, se libertou e deixou de ser santa de porcelana para se tornar mulher de carne e osso. Ela não quis se submeter a TUDO para segurar o marido. Preferiu ser mulher, ainda que prostituta para a sociedade, a ser esposa, senhora e dama na sociedade, e prostituta às escondidas. Pombinha negou a hipocrisia social, moldada pelos valores de uma elite europeia decadente. Preferiu ser uma mulher Maria da Penha.

A mulher Maria da Penha é a personificação da ameaça à masculinidade insegura e frágil. Por isso, ela é maltratada, é usada, é explorada, é  espancada. Ela não manipula, enfrenta de cara limpa; é destemida; esbarra na morte e não esmorece; perde a locomoção e age; ela é guerreira, denuncia os abusos e os exageros, luta por justiça, mesmo injustiçada; a mulher Maria da Penha não se finge de frágil nem usa as conquistas e as leis que as mulheres levaram décadas para alcançar para justificar suas maledicências e manipulações. A mulher Maria da Penha se respeita como mulher. 


sábado, 12 de janeiro de 2013

MEUS RESPEITOS AMERÍNDIOS A HUGO CHÁVEZ




Solidariedade ameríndia ao povo e ao líder venezuelano. Estamos vivendo um momento histórico muito importante para a América Latina, em especial para a América do Sul. Deixando de lado todas as avaliações, que nos vêm filtradas pelo filtro ideológico estadunidense e que não nos interessa de jeito nenhum, estamos sim testemunhando acontecimentos muito importantes: depois de Augusto Pinochet, o Chile elegeu, Patricio Aylwin (1990-1994), Eduardo Frei Ruiz-Tagle (1994-2000), Ricardo Lagos (2000-2006), Michelle Bachelet (2006-2010; Mulher, médica, preside também a União de Nações Sul-Americanas) e Sebastián Piñera (2010...): avanços... No Peru, temos: Valentin Paniagua Corazao (2000-2001), Alejandro Toledo Manrique (2001-2006), Alan García Pérez (2006-2011), Ollanta Humala Tasso (2011...); no Uruguai: Julio María Sanguinetti (1995-2000), Jorge Batlle Ibáñez (2000-2005), Tabaré Ramón Vázquez Rosas (2005-2010) e José Mujica (2010); no Paraguai: Luis Ángel González Macchi (1999-2003), Nicanor Duarte Frutos (2003-2008), Fernando Lugo (2003-2008), Frederico Franco (2012...), vale ressaltar que o Paraguai instituiu o Guarani, uma língua ameríndia, como língua oficial do país e uma das línguas oficiais do Mercosul; avanços... A eleição de Hugo Chávez (filho de professores, militar, líder da Revolução Bolivariana), presidente da Venezuela desde 1998, Evo Morález (da etnia Uru-Aimará, líder dos cocaleros), presidente da Bolívia desde 2005, muito avanço... Cristina Kirchner (primeira mulher eleita e reeleita por voto direto para a presidência da Argentina, descendente de galegos e alemães), de Primeira Dama a Presidenta, eleita em 2007 para presidir a Argentina. No Brasil pós-ditatura militar, depois e apesar dos muitos tropeços, elegemos Luiz Inácio Lula da Silva (nordestino, pobre, líder dos operários metalúrgicos de SP) e, depois dele, Dilma Vana Rousseff (filha de búlgaro, classe média alta, primeira mulher a presidir o Brasil), eleita em 2010, foi empossada presidenta em 2011, modificando as estruturas tradicionais (machistas e elitistas) de toda a América Latina, alterando inclusive algumas bobagens gramaticais que herdamos de nossos colonizadores. É... estamos vivendo um momento muito importante de nossa história! São muitos avanços... Meus respeitos a Hugo Chávez por sua contribuição nesse processo, diga quem quiser o que quiser!

terça-feira, 24 de julho de 2012

LIBERDADE






Depois da vida material, a liberdade é, sem dúvida, o bem mais precioso para todo e qualquer ser humano, mas tem um sentido muito profundo e especial para as camadas sociais que foram historicamente desprovidas de liberdade: pobres, judeus, negros, indígenas, mulheres, crianças... etc. 

Viva a liberdade para todos os povos, para todas as cidadãs e para todos os cidadãos do mundo!!!!!


domingo, 4 de março de 2012

Às Bertolezas do século XXI (começo minha homenagem às mulheres reblogando este texto, o último do ano passado)




A morte é a libertação, porque  
 a libertação está na coragem de ter atitude

Hoje, em mais um Dia Internacional da Mulher, fiquei pensando e me perguntando: Mudamos? Em quê? Como? Como somos e como estamos agora? E mais uma vez me vieram à mente as imagens da Bertoleza, lá no cortiço. Essas imagens me seguem desde que li pela primeira vez, nem me lembro mais quando foi, O cortiço, de Aluísio Azevedo.
Algumas características da personagem Bertoleza foram cruciais pra mim, talvez por afinidade. Afinidade que foi se ampliando ao longo de minha vida: Bertoleza era negra enganada – escrava de mentira e alforriada de mentira; Bertoleza foi usada, explorada e libertada pela morte de seu algoz; Bertoleza foi usada, explorada e desalforriada, para a conveniência do amásio; Bertoleza foi libertada por si mesma, por sua própria atitude.   

Bertoleza foi enganada, usada e usurpada de todo o direito à liberdade por seu falso dono. Ela cria que aquele era seu senhor e, então, trabalhou duramente, honestamente e confiantemente, guardando cada tostão que ganhava para comprar sua alforria. Sonhava com o dia em que seria livre. A morte levou seu senhor e com ele sua  esperança de alforria. Bertoleza trabalhou em vão.

João Romão consolou-a, amparou-a, prometendo-lhe a tão sonhada liberdade. Amasiaram-se e João Romão tirou-lhe cada centavo economizado durante toda a vida. João Romão enriqueceu e se fez “gente” à custa das economias, do parco mobiliário e da mão de obra de Bertoleza, para depois lhe tirar cada suspiro de esperança, de fé na vida e no ser humano.

Já homem de sociedade, rico e bem posto, João Romão precisava de uma esposa apresentável, educada e filha de “boa família” - queria uma mulher branca. Para isso, ele precisava se livrar da amásia negra – escrava era coisa fácil de se adquirir, já uma dama da sociedade para tomar por esposa era muito difícil. João Romão não hesitou em denunciar Bertoleza ao seu verdadeiro dono para lhe colocar em seu “verdadeiro lugar”, para mandar-lhe de volta ao seu lugar original de pertencimento. Bertoleza viu esvair-se o empenho de toda uma vida e ser-lhe arrancada a esperança de alcançar seu bem maior.

Com a mesma destreza com que manipulava a faca para limpar peixes, Bertoleza rasgou-se de cima a baixo, pondo fim à sua busca por liberdade: se a morte de seu algoz não fora suficiente para lhe garantir a alforria, ninguém poderia lhe tirar a liberdade conferida pela morte. A morte é democrática e justa, se não perdoa nem isenta ninguém, também não discrimina nem exclui. 

Bertoleza foi enganada, usada e usurpada de todo o direito à vida por seu falso amásio. É impossível precisar qual dos “senhores” enganou e usou mais aquela mulher! 
Com o tempo, as maneiras de enganar e explorar mudam, mas o fato continua o mesmo. Ainda hoje, em pleno século XXI, os homens continuam a praticar as mesmas canalhices, porém, de modo mais sofisticado, legitimado pelo mesmo discurso engajado, que esbraveja em defesa dos direitos da mulher.

As mulheres, por sua vez, continuam a acreditar nas forjadas falsas boas intenções masculinas, "afinal os tempos são outros, se eu fizer a minha parte..." Na verdade, nem acreditam, se deixam enganar de propósito, porque morrem de medo de ficar sem homem. Continuamos a nos amasiar a qualquer João Romão vira-lata e mal intencionado que nos consola e promete qualquer coisa que, sabemos muito bem, nunca vai cumprir!

A sociedade, com os olhos vendados pelos raios transparentes da hipocrisia, permite, abençoa e aplaude toda e qualquer atitude machista. As próprias mulheres, tão enganadas e usurpadas quanto a Bertoleza, contribuem para a perpetuação desse comportamento coletivo. No fundo, no fundo somos todas Bertolezas, em maior ou menor grau, e eles são todos João Romão, em um só e mesmo grau.

Mudamos? Em quê? Como? Como somos e como estamos agora? 

Não mudamos, a sociedade mudou e agora contamos com alguns artifícios e algumas estratégias que nos protegem de nós mesmas, de nossa profunda crença na humanidade do masculino. Nós mudamos nosso discurso e nosso comportamento para acompanhar o nosso tempo, que nada mais representa do que o desejo de estar na moda. 
Depois de tantas lutas e conquistas, na esperança de que as novas gerações possam viver em uma sociedade mais igualitária e justa e, assim, usufruir de tudo que as gerações anteriores conquistaram, assistimos a um retrocesso lamentável: uma parte das mulheres “dessa nova geração” usa os homens como burro de carga, provedor de suas futilidades, e como objeto sexual descartável, ao passo que outra parte garante aos homens meios de ser o burro de carga e o objeto sexual descartável daquelas que eles desejam. Os homens continuam, em essência, pensando e agindo como nossos avós e nós, mulheres, continuamos a pensar e agir como nossas avós, tanto as damas da noite quanto as damas da sociedade.  

Não mudamos nosso sentimento, nem nossa maneira de sentir e de expressar o que sentimos. Somos Bertolezas em nossa ingenuidade feminina e fragilizada, mas não somos Bertolezas na coragem e na dignidade de ter atitude e mandar às favas esses machos com seus jogos e conchavos. Não somos Bertolezas na coragem de mandar às favas aquele macho que nos procura e, doce e dissimuladamente, nos usa para ferir e sacanear sua companheira de uma vida inteira.

Infelizmente, não temos a dignidade e a honradez de uma Bertoleza, nos faltam cor a gem e sangue.  

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

FELIZ 2012 PARA TODOS OS MEUS AMIGOS ESPALHADOS PELO MUNDO....

 
http://www.baixaki.com.br/papel-de-parede/16225-fogos-de-fim-de-ano-na-ilha-da-madeira-portugal.htm

Feliz Ano Novo!

Glückliches

Neues Jahr Nytar
Feliz Año Nuevo

Felicigan Novan Jaron

Heureuse Nouvelle Année

Feliz Aninovo

Shaná Tová

Happy New Year

Felice Nuovo Anno

Akemashite Omedetou Gozaimasu

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

IDENTIDADE COMPARTILHADA

Fotos de Omi Kaya

‎"Sou negra"
Negros olhos...
Negros cabelos...
Pele negra...

... Vinda de África
De ancestrais guerreiros...
Trazidos em navios negreiros
Carrego no coração as marcas do cativeiro...

Protegida pelos orixás
Entidades de força e coragem
Oxum, Yansã e Yemanjá...
Sou chuva, sou vento, tempestade...

Forjada pra seguir na luta...
Guerreira!
Não fujo da batalha...

Minha cor não nega...
Sou negra!


Ornella M. Rodrigues
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O último ato: homenagem a Leonardo Lima - estudante de Letras/UFG, brutalmente assassinado, em Goiânia!




no rosto a expressão é branda e serena sem medo sem perguntas sem questionamentos nem resistências... passos decididos postura austera cabeça erguida coragem dignidade movimentos firmes delicados graciosos olhar seguro devaneia a procura... do nada... braços soltos leves esvoaçantes asas errantes pernas lânguidas pálpebras cerradas o corpo é suporte da entrega e disfarce da alma... desce a cortina... aplauso? Silêncio... apenas silêncio

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

NOTA DE FALECIMENTO

Faleceu o Prof. Egidio Turchi, pioneiro da UFG e um dos fundadores da Faculdade de Letras; pai da Profª Maria Zaira Turchi nossa ex-diretora. 

O corpo está sendo velado no cemitério Jardim das Palmeiras, onde será sepultado amanhã às 9h. 

Nossas condolências à família.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Gêneros da alma

Ainda falando de respeito humano e ao ser humano. Em nossa cultura, respeitam-se os homens, ainda que estes não mereçam nem sejam dignos de respeito. Os homens temem os homens e, por isso, os respeitam. Não temem as mulheres e, por isso, não as respeitam. O namorado é cuidadoso e receoso com relação ao pai da namorada. Se, todavia, a namorada não tiver pai o namorado fica "bem mais à vontade". O vizinho respeita muito a casa e a família ao lado, porque na casa está o marido, o pai, a figura masculina digna de respeito.Ainda que o patriarca não seja o chefe de família. Os homens tendem a não respeitar a casa da viúva nem da separada. Falta a figura imponente do macho. A moça, quando se prepara para se casar, recebe como aconselhamento de uma mulher mais velha (a mãe, a avó, a tia…): "tome todas as decisões e providências, faça o que for melhor para sua família e sua casa, mas deixe seu marido pensar que é a vontade dele, que é ele quem está decidindo e tomando as providências, faça parecer que ele é a autoridade da casa". Pode-se depreender disso que o homem é e sempre foi frágil e inseguro, embora detenha força física, não esteja sujeito a efeitos hormonais cíclicos nem tenha sido historicamente oprimido como a mulher. Foi necessário um intenso trabalho de empoderamento do masculino e repressão do feminino. Há um construto simbólico-discursivo mantido pela tradição, em que a mulher precisa de um homem, ela só estará amparada se estiver sob a guarda e custódia de um homem (o pai, um irmão, o marido); ela só será digna de respeito se tiver um homem que a defenda e responda por ela; e por aí vai.
A mulher conquistou espaço e passou a ser também a provedora, além de ter poder de decisão e tomada de atitude, ser capaz de administrar a vida no lar, organizar a casa e cuidar da família, sem perder a ternura, a doçura e feminilidade. Os papéis entraram em processo de reelaboração. Nesse processo, o papel do masculino parece não se contrastar mais com o feminino. Pelo contrário, parecem se (con)fundir. Entretanto, a neutralização de papéis entre o masculino e o feminino, aos olhos da sociedade conservadora, diminui o homem e o feminiza. Estamos em processo de construção do homem feminino e da mulher maculina. E o homem, que deveria assumir com orgulho esse novo perfil, sente-se perdido e inseguro. A mulher, sobrecarregada e dividida, sente-se cansada. Ouvi de um psicólogo amigo meu; "a mulher queria ser igual ao homem, taí, agora aguenta". A mulher não queria ser igual ao homem. A mulher quer ter os mesmos direitos na vida, na sociedade; ser respeitada como ser humano e como mulher; a mulher quer dar visibilidade ao seu papel na família e na sociedade; deixar de fazer de conta que é secundária, não ter de deixar o marido e a sociedade pensarem que é o marido que faz tudo, quando na verdade é ela que faz. Visibilidade, reconhecimento e justiça: é isso que a mulher quer, na verdade, sem perder a feminilidade. O que aconteceu é que a mulher assumiu, de forma escancarada, todos os deveres e responsabilidades, sem ter direitos. E a sociedade legitima isso com seu discurso machista ultrapassado.
Mesmo diante dessa conjuntura, o homem resiste em respeitar a mulher, em dispensar à mulher o respeito humano que todos merecemos. Todos sem exceção devem ser respeitados, pois os anjos (espíritos) não têm sexo e o gênero da alma é não-marcado.  

Idades da alma

Em nossa cultura, em todas as épocas, fala-se muito no respeito à natureza e ao próximo. Exige-se respeito, mas respeita-se pouco. A palavra ‘respeito’ vem do latim re + specto, significando olhar para trás. Com o uso, o item foi adquirindo outras significações. Em contextos religiosos, cristãos, temos nos dez mandamentos o honrar pai e mãe, que remete ao respeito. Tal acepção relaciona ‘respeito’ com ‘temor’: quem teme a Deus, respeita a Deus. Assim, honrar pai e mãe é temer e respeitar pai e mãe. Em contextos de relações sociais, exigem-se respeito aos mais velhos e aos superiores. Atualmente, além dessas significações mais antigas, uma das mais usuais é ‘estima’ e ‘consideração’. Então, ter respeito por alguém pode significar temer, honrar, ter estima e consideração por esse alguém. Observamos também, na sociedade, que há uma hierarquia etária de respeito, dos mais velhos para os mais novos e da forma em que os discursos são organizados, pode-se inferir que as crianças não são respeitáveis. Podemos notar também, na cultura brasileira, que, em geral, os homens são mais respeitados que as mulheres, o que reaproxima o conteúdo de ‘respeito’ ao de ‘temor’. Os homens temem outros homens, por isso, os respeitam.
Neste espaço, quero discutir ‘respeito’ como um tipo de postura e atitude, inserido na hierarquia etária da sociedade. Essa acepção está fazendo com que o direito de algumas categorias sociais torne o uso do conceito ‘respeito’ uma estratégia discursiva apelativa, com a finalidade de persuasão, convencimento. Assim, os mais velhos devem ser respeitados por todos, uma pessoa idosa é digna de respeito. As autoridades, independentemente de sua idade, devem ser respeitadas, os pais, ainda que jovens, devem ser respeitados. No fim das contas, sobram os adolescentes e as crianças.
Não discordo das normas sociais vigentes em nossa cultura. Respeito-as! Todavia, gostaria de defender o respeito aos adolescentes e às crianças. Para tanto, tenho de apelar para o cultivo do respeito ao ser humano, consideradas suas diferentes fases no ciclo da vida. Uma criança merece tanto respeito quanto um idoso. Os problemas das crianças (e também dos adolescentes) aos olhos dos adultos parecem bobagem, pois estes já passaram pelos mesmos dramas e em sua adultice lidam com coisas muito mais graves e sérias. Para as crianças, entretanto, seus problemas são problemas, reais e graves, dentro do constexto e dos limites da infância. É preciso relativizar e ver o outro em seu contexto e em seu momento, considerando os limites tanto do respeito quanto da liberdade.
Os idosos, por outro lado, se reservam o status de "os respeitáveis", por excelência. Em nome disso, querem ditar as regras de conduta e as normas gerais de comportamento. Eles consideram normal, natural e correto que um grupo inteiro de pessoas deixe de viver para respeitar os seus direitos de idoso, para satisfazer seu desejo, necessidade e, muitas vezes, seu capricho de idoso. É preciso relativizar e considerar que todos têm direito a serem respeitados em sua condição de humano.Todos, sem exceção nem ressalvas, merecem respeito em sua condiçao e integridade, porque a alma (o espírito) não tem idade e, ao mesmo tempo, tem todas as idades. Uma criança, muitas vezes, em sua experiência de vida iniciante, está mais aberta, e ajuda um adulto ou um idoso a ver o mundo e os fatos de uma forma diferente, em geral, mais leve e mais justa.

CORES DA ALMA

O item lexical ‘negro’ vem do Latim ‘niger, nigra, nigrum’, significando, por volta do século XIII, cor preta ‘preto‘, sujo, lúgubre; nessa acepção, deriva da raiz -nec(r)~-neg(r), semantema relacionado a escuro (= a cor da morte [necrose, necrotério, etc.], do luto e da tristeza, em algumas culturas) e à negação, negativo, como em ‘negócio‘, que é a negação (ação de negar, impondo seu contrário) do ócio. Negro/a, então, seria a negação (ou a afirmação do seu contrário, do seu oposto) de quê? Acaso é o sujo, contrário de limpo? Ou o escuro, contrário de claro? É o negativo, contrário de positivo? Ou o escuro, sem cor, negação da cor? O léxico, de qualquer língua, é prenhe de ideologia e valorações sociais, historicamente construídas, e nossas escolhas lexicais podem construir e legitimar mentalidades. Quando os romanos nomearam as/os africanas/os de ‘nig-’, impingiram a elas/eles toda a carga semântica, socialmente contruída, da raiz -nec(r)~-neg(r). Cada vez que usamos, de forma pejorativa, o lexema ‘negra/o’, em alusão às cidadãs e aos cidadãos afro-descendentes, legitimamos e fixamos os valores hitórico-sociais construídos e atribuídos a esse povo.  Os povos de cor escura são inferiorizados, discriminados, humilhados e excluídos das esferas e dos espaços de prestígio social. Relegados ao abandono e à pobreza, no geral, salvo poucas exceções, são intimidados e impedidos de desenvolver suas habilidades. Quando as desenvolvem, a despeito dos obstáculos, não podem visibilizá-las. São tratados pela sociedade como incapazes e desprovidos de alma. São reificados, são peças. Tudo isso de forma sutil e quase imperceptível a olho nu, com o aval da sociedade e as bênçãos dos representantes de Deus. A esfera mais poderosa de fixação e legitimação dessas injustiças cósmicas é a do sagrado. As formas de manifestação e de experienciação do sagrado são diferentes, de povo para povo, de cultura para cultura. Algumas são legítimas e reconhecidas outras não; algumas inferiorizadas vão, paulatinamente, conquistando respeito, a maioria nem consegue externar sua existência. Algumas formas de expressão e experienciação do sagrado são consideradas ‘religião’, outras são ‘crenças’, e outras são ‘seitas’. Tudo o que não for considerado ‘religião’ deve ser combatido, expurgado. Logo, seus seguidores serão perseguidos. Assim, os afro-descentes se vêem forçados a se ‘converterem’ a alguma ‘religião’ para salvarem, não as suas almas, mas as suas peles.
Quem decide? Com base em quê e sob quais critérios e circunstâncias?
As mulheres e os homens de cor escura, amparadas/os pela lei, ainda que em pequeno, mas significativo número, vêm cada vez mais conquistando espaços na sociedade. Com isso, essas mulheres e esses homens estão podendo mostrar que são tão capazes como qualquer outro ser humano, que são tão sensíveis quanto qualquer pessoa, que são humanos até mais que muitas pessoas que se julgam muito humanas. Essas mulheres e esses homens possuem alma e coração; são amáveis e sensíveis; são inteligentes e sábios; trazem em si a sabedoria milenar (e até mais) de seus ancestrais e uma profunda consciência cósmica, expressa no respeito a seu semelhante e a si mesmas/os. 
Ora, a alma não tem UMA cor! A alma é de todas as cores! A alma colorida pela alegria e pelo amor faz bem a toda a Humanidade e é disso que precisamos: de almas coloridas

CIRCUNCISÃO NA ALMA

Nos países, cujas culturas não primam pela prática da circuncisão,
as mulheres são preparadas para a vida de uma forma diferente.
São educadas para a virtude e a pureza (pudor) do mesmo jeito.
A despeito da não existência da prática da circuncisão,
as mulheres são castradas, de uma forma que, mesmo sendo liberadas e recebendo permissão,
ou mesmo sabendo que podem qualquer coisa,  não conseguem se soltar nem se entregar.
Trata-se de uma circuncisão mental (psicológica). Não é somente o corte de um pedaço do corpo que mutila a mulher.
A educação repressora desenvolvida em forma de persuasão também mutila, e para o resto da vida.
Este texto é parte de uma reflexão sobre violência simbólica contra a mulher publicada no blog "Confissões de Bertoleza".