quinta-feira, 25 de maio de 2017

Decolonização da percepção sociolinguística

O emprego dos possessivos e a reencarnação de Antígona


As escolhas que fazemos, consciente ou inconscientemente, mais ou menos cuidadosamente, na edição das narrativas que compomos, na vida cotidiana, revelam as epistemologias, as teorias, as ideologias e os valores que nos orientam no mundo. Nossas práticas são tão naturalizadas, que (re)agimos no mundo, conforme as situações e os interlocutores, movid@s e motivad@s pelas circunstâncias e, raramente, prestamos atenção nas razões, pelas quais (re)agimos da maneira que (re)agimos e por que fazemos as escolhas que fazemos.

Uma reação muito naturalizada é o julgamento d@ outr@, não raro um ativador de prejulgamentos e demonizações, principalmente d@s diferentes, que nada mais são do que nossa imagem refratada no espelho da realidade. Por que julgamos tanto? Por que temos tanta necessidade de julgar? Julgamos nossa imagem refletida, que amamos, e julgamos nossa imagem refratada, que odiamos. Talvez seja um mecanismo de autodefesa, talvez, vai-se saber.

Outra prática corriqueira, correlacionada à anterior, é a auto-martirização (personalização/individualização) – o ato de nos colocarmos, sempre, no centro do universo, para atrair atenção, a qualquer preço, para sorrir ou para chorar. Ultimamente, está praticamente impossível desenvolver qualquer tipo de discussão ou de propor e desenvolver qualquer ação coletiva, porque toda manifestação - política, social, coletiva - é arrastada para o âmago pessoal, individual de alguém que, em geral, sofre muito com a demanda (ação ou denúncia) e, assim, atrai para si a compaixão e a comiseração coletiva, ao mesmo tempo em que leva a (pre)julgamento @ demandante da ação ou proposta política coletiva, demonizando-@, conseguindo pôr fim à discussão, ação ou denúncia. Perde a coletividade, ganha o "sistema-mundo".

As práticas mencionadas nos parágrafos precedentes revelam estratégias antigas, empregadas para pôr em combate @s iguais, @s dominad@s, que precisam ser controlad@s, enquanto os grupos dominantes seguem com seus projetos perversos. Ai de quem tentar abrir os olhos da coletividade para esse fato, ess@ "não vai ter perdão!" Para se construir essas narrativas, que considero perversas e mantenedoras da colonialidade, são feitas edições e seleções sociolinguísticas, muitas vezes, tão naturalizadas e tão “simpáticas”, “afetuosas”, que nem percebemos. Correndo todos os riscos da demonização, nos bastidores, é disso que quero tratar neste texto.

Seguindo o raciocínio bakhtiniano, considero a língua sensível a e reveladora de qualquer manifestação social e/ou ideológica. Essas manifestações são plurais, plurivalentes e interseccionadas, portanto, prenhes de conflitos. Há algum tempo, venho observando na Universidade o comportamento sociolinguístico das pessoas que fazem falas públicas e o que suas práticas sociolinguísticas revelam de suas condutas ideológicas e políticas. Neste ano, nas campanhas eleitorais, na Universidade, passei a observar o comportamento d@s candidat@s, sobretudo daqueles que considero carreiristas, para depreender o que suas práticas sociolinguísticas podem mostrar a  seu respeito. Não foge muito do que vi antes. Há, na postura política dessas pessoas, revelada em suas práticas sociolinguísticas, a co-fusão entre público e privado e o velho costume da apropriação do bem público. Essas práticas podem ser vistas 1) no uso do pronome possessivo e em correlação com 2) a forma seletiva da campanha eleitoral.  

1) O uso do possessivo
É muito comum pessoas públicas, em geral, empregarem o pronome possessivo, em referência a bens que não lhes pertencem, principalmente, o patrimônio público, como em: “Não duvidamos, mesmo nas horas mais difíceis, que o nosso país já estivesse amadurecido suficientemente para que as regras e fundamentos da moral e do direito resistissem a tôda sorte de desregramentos da paixão” (Juscelino Kubitschek, 1956). Em 1 de janeiro de 2015, o Governador de Goiás, Marconi Perillo, iniciou seu discurso de posse, citando versos de Cora Coralina e, na sequência, afirmou: “No passado, alguns movimentos foram decisivos para a formação de nossa sociedade e para assegurar a consolidação de nosso Estado como um dos mais pulsantes e desenvolvidos do Brasil”. [...] “Os bandeirantes vieram de fora para buscar a integração do nosso território a um projeto nacional” (Jornal Opção). 

O emprego do possessivo, nos contextos e funções apresentados, se popularizou nas falas públicas, de modo geral. As pessoas que trabalham nas secretarias de estados e municípios, por exemplo, com assistência social aos idosos, se referem a estes como “os meus idosos”; as que trabalham com crianças dizem “as minhas crianças”; os profissionais da educação, que atuam em uma determinada escola, e também @s estudantes, dizem “a minha escola”. Da mesma forma, @ gestor responsável pela escola: “a nossa escola”, “os nossos professores”, “os nossos alunos”. Há um sentimento de apropriação naturalizada do bem público, das pessoas e dos corpos, refletida nas práticas sociolinguísticas. Há um consenso de que esse emprego do possessivo é uma estratégia de aproximação com os interlocutores e uma forma de conferir aproximação e afetividade com o "objeto possuído", que não é posse (ou pelo menos não deveria ser) de ninguém, a não ser do povo, exceto pelas pessoas.

O pronome possessivo é possessivo porque sua função prototípica é justamente indicar posse. Ainda que ele seja usado para promover outros efeitos de sentido, sua função prototípica é somente enfraquecida, mas nunca totalmente esvaziada. Então, quando a pessoa diz “nossa faculdade”, “nossos professores” e “nossos alunos”, ela está revelando seu sentimento de posse sobre a faculdade, um bem público, e sobre os professores e os alunos, sujeitos inalienáveis, que são reificados na enunciação, uma prática sócio-histórica no Brasil. Isso não diz respeito a tod@s, somente a alguns. Somente aquelas pessoas acostumadas com os privilégios históricos ou que atribuem a si e aos "seus" determinados privilégios, inclusive o de apropriação do patrimônio público, incluindo seu corpo de funcionári@s e de estudantes, em caso de escolas. Trata-se da co-fusão entre o público e o privado, apontado por Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil:

No Brasil, pode dizer-se que só excepcionalmente tivemos um sistema administrativo e um corpo de funcionários puramente dedicados a interesses objetivos e fundados nesses interesses. Ao contrário, é possível acompanhar, ao longo de nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. Dentre esses círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu com mais força e desenvoltura em nossa sociedade. E um dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar – a esfera, por excelência dos chamados “contatos primários”, dos laços de sangue e de coração – esta em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós. Isso ocorre mesmo onde as instituições democráticas, fundadas em princípios neutros e abstratos, pretendem assentar a sociedade em normas antiparticularistas. (HOLANDA, 1995, p. 146)

As práticas sociolinguísticas revelam as posturas políticas e ideológicas dos falantes, além de guardar e revelar a sócio-história da própria língua e do povo, o corpo social, a coletividade que dá vida á língua.

2) A forma seletiva da campanha eleitoral
Outro costume que me chamou a atenção, esse especificamente com relação às campanhas eleitorais de 2017, é o fato de @s candidatos irem às unidades para "negociarem" votos com diretor@s e, no máximo, conversarem com o conselho diretor da UA. Como são conselhos de representação, exceto pelas unidades mais democráticas que têm conselhos plenos ou ampliados, esses conselhos são formados por uma pequena parcela de professor@s e uma ainda menor, diria até mesmo ínfima (se considerada a proporção) de estudantes. Ora, se @s tod@s docentes, no caso do sindicato, votam, e, em se tratando da reitoria, tod@s, docentes, discentes e TAEs, votam, por que a campanha se limita à abordagem apenas a@s representantes? Alguns d@s candidat@s, ao se dirigir para a sala, onde estava reunido o Conselho Diretor, ao passar por estudantes e professor@s, nem mesmo  @s cumprimentava, em atitude de completo descaso e desmerecimento.  

Nesse caso também trata-se da velha prática co-fusão entre público e privado, em que @ diretor@, @ gest@r, com @s conselheir@s, são @s don@s. O patrão, o empregador, é o procurado. Então, basta ir falar direto com “o dono dos porcos” para não perder tempo, porque "tempo é dinheiro". E, pior, revela ainda o ranço do coronelismo, do "voto de cabresto". Basta falar com o “chefe” e fechar com ele. Ele manda e @s funcionári@s obedecem. Não é preciso perder tempo conversando com todo mundo, com professor@s, estudantes e TAE.

A língua é, realmente, reveladora das ideologias e das práticas sociais. Não é à toa que essas pessoas declaram a “nossa universidade”, a “nossa faculdade”, os “nossos alunos”, os “nossos professores” o “nosso curso”. É porque tudo isso pertence a elas, “de porteira fechada”.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Porto Alegre: Companhia das Letras, 1995, p. 146.

JORNAL OPÇÃO. Discurso de Posse de Marconi Perillo. Disponível em: . Acesso em: 22 mai. 2017. 

PINTO, Luíza Helena Nunes. (Org.). Discursos Selecionados do Presidente Juscelino Kubitschek. Brasília-DF: Fundação Alexandre Gusmão/Ministério das Relações Exteriores, 2010, p. 9.  

sábado, 13 de maio de 2017

Pré-verdades

Depois do depoimento do "Sr. Ex-Presidente" ao Juizinho de Curitiba, a  mídia - in prensa - está lançando mão de todos os recursos multimodais de comunicação e atirando pra todos os lados, sem se preocupar com que alvos estão sendo atingidos. Corre o risco, com isso, de atirar nos próprios pés ou de atirar pra cima e ser atingida na testa por suas próprias munições. Com esse joga-joga, cai em contradição com o próprio jogo de construção discursiva e de imaginário que defende, ao buscar argumentos de autoridade, impensadamente.  

Figura 1: A culpada pelo Nazismo
Na Figura 1, o argumento de autoridade mobilizado é o conhecimento de História. Para o entendimento da Figura 1, apesar de estar situada em um contexto imediato, de domínio público, é necessário conhecimento de história geral, para o estabelecimento da inter-relação. Com a atual abominação da área de História e com a histórica demonização do Nazismo, sem um adequado, contextualizado e problematizado ensino do que foi, de fato, o Nazismo, nem a construção de sentido nem, muito menos, a construção do efeito de sentido, que pretende o cartum, serão alcançados, exceto pela RHBB (República dos Homens de Bem do Brasil), da linhagem de Temer, Sarney, Marconi Perillo, Iris Rezende and so on. Somente esses conseguem rir da piada no Cartum. É piada, é para rir. Esse é o propósito do efeito de humor. A articulação entre os textos verbal e não verbal, no cartum, para a construção do efeito de humor, reflete um conhecimento ancorado em uma visão de mundo e uma epistemologia euro-branco-falo-cêntricas, que são a base ideológica que orienta o pensamento e o comportamento da RHBB. Em geral, os efeitos de humor d@s brasileir@s são sustentados por esse tipo de cosmovisão e de epistemologia.    

                                                                                                              
Figura 2: Sessão Espírita

Na Figura 2, uma "corte especial" realiza uma sessão espírita, evocando Dona Marisa Letícia, para esclarecer a questão do "triplex", pois o judiciário, conforme ficou muito claro, não dispõe de provas. A língua é traiçoeira. A língua escrita, então, é ainda mais traiçoeira. Por isso, para se construir qualquer efeito de sentido, mais importante do que dominar o "padrão culto" do "legítimo português brasileiro", é necessário dominar o funcionamento do português brasileiro. O propósito do cartum é ridicularizar com o "Sr. Ex-Presidente", mas, na realidade, ridiculariza muito mais com o Sr. Juiz, que, por absoluta falta de provas, têm de "apelar às forças do além", se quiser incriminar Lula, porque, com informações da terra, não conseguirá. É. O cartunista não me parece muito habilidoso com construção de efeito de humor no "português da gente". Além disso, e o que me pareceu mais grave, é que o cartum, também ancorado na ideologia da RHBB, de base, agora ampliada, cristã-euro-branco-falo-cêntricas, desrespeita e ridiculariza as religiões que acreditam na vida ou em energias de vida após a morte. Esse cartum (Figura 2), portanto, considerando o disposto na Constituição de 1988, acerca do "respeito ao credo" dos cidadãos e das cidadãs, chega a ser criminoso. Por isso, você, que se gaba de ter o maior cuidado antes de curtir e de compartilhar qualquer coisa na internet, verificando sempre a confiabilidade das fontes e das informações, passe a ter cuidado também com a ética dos sentidos e dos efeitos de sentidos das informações. Para além dos sentidos construídos, reflita se os efeitos de sentidos não estão causando algum tipo de constrangimento, desconforto, sofrimento etc. 

Segundo especialistas, ex-presidente demonstra raiva, ansiedade e contradições. 

A estratégia do jornal O Globo, para a construção de uma imagem de seriedade, é o argumento de autoridade científica. O jornal convoca especialistas para fazer a leitura corporal do "Ex-Presidente" e emitir um "parecer". Quem conhece Lula de entrevistas e pronunciamentos na TV, de palcos e palanques, e o viu no depoimento, sabe que ele manteve a mesma expressão corporal e facial de sempre. Lula não tem a expressão contida e serena dos ocidentais educados na Europa ou nos "bons" colégios religiosos do litoral do sul e do sudeste do Brasil. Nunca teve dinheiro para tanto. Não é hipócrita nem fingido. Seu timbre de voz é alto e forte, sempre foi. Ele fala com o corpo, sempre foi assim. Todas as pessoas que falam com o corpo e têm o timbre de voz alto e forte são interpretadas como pessoas mal educadas, brutas, sem modos; ou como nervosas, ansiosas, agressivas... Esse molde já está pronto, é só encaixar. Por outro lado, essas pessoas passam uma mensagem ao seu interlocutor: "não é com pouca coisa que você vai conseguir me enrolar, cabra!" Isso assusta. Lula foge ao padrão. Isso assusta. Os especialistas precisam explicar para dar credibilidade, porque as piadas, que tanto agradam aos brasileiros, não estão conseguindo fazer o serviço. 

O que é que tudo isso mostra: DESESPERO! Não precisamos ajustar a bússola. 

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Interseccionalidade: insegurança, autoritarismo e controle


Muitos acontecimentos chocantes marcaram os últimos meses, as últimas semanas e até o último dia de 2016. Por serem demasiadamente chocantes, acabam reduzidos a explicações simplistas, para acalmarem a curiosidade popular ou para permitirem o entendimento geral. Alguns desses acontecimentos me chamaram mais a atenção, não sei dizer o porquê, e fiquei pensando: o que eles teriam em comum? Aparentemente, nada. Aparentemente, tudo. A contradição da complexidade sempre revela a intersecção entre diferentes acontecimentos. Por isso, a ilusão da simplificação satisfaz tão apressadamente a ansiedade da busca de respostas.
Em um dos acontecimentos (não necessariamente ocorrido primeiro), um diretor de faculdade ocupada da UFG, como outras faculdades ocupadas, já com liminar de desocupação, adentra ao prédio, acompanhado por seguranças pessoais e exige a saída d@s estudantes, antes do prazo final previsto na liminar. @s estudantes não aceitam a imposição do diretor e exigem sua imediata retirada da faculdade. O diretor resiste, agride fisicamente @s estudantes e, por isso, é expulso do prédio. Inconformado, o diretor depreda o prédio, avariando-o*, coisa que @s estudantes, durante os dezoito dias de ocupação, nunca fizeram. O diretor (autoridade) age com autoritarismo, demonstra despreparo para lidar com crises, instabilidade e estresse. Ele, que deveria administrar a situação, foi o causador dos conflitos. Seu autoritarismo e desejo de controle, e seu total descontrole e desequilíbrio, ao não ser obedecido, mostram sua falta de preparo para lidar com conflitos e, principalmente, mostram sua falta de habilidade para lidar com seres humanos, sobretudo quando esses seres humanos não estão dispostos a lhe obedecer. Depois de tudo feito, o diretor inverte os fatos, culpabiliza @s estudantes, afinal de contas, para a opinião pública “eles não passam de baderneiros mesmo”. @s estudantes não têm espaço na mídia, como tem um diretor de faculdade da UFG, apoiado e defendido pela diretoria do sindicato d@s professor@s (vejam bem: defendido pela “diretoria”, não pelo sindicato nem pel@s professor@s). Assim, o diretor nem tem de enfrentar as consequências de seu “destempero” moral e ético. ELE é a vítima.
O outro acontecimento que selecionei (não necessariamente acontecido na sequência do anterior) é o caso de um homem que, por não aceitar o fim do casamento, mata a tiros a ex-esposa. Poderia ser mais uma história corriqueira de um homem de meia idade, casado com uma mulher vinte anos mais nova que ele, seu “troféu social”, sua “prenda emocional”. Uma mulher jovem, bonita, cheia de vida e, maltratada pelo marido. Poderia ser mais uma história corriqueira e banal. Mas ela não aceitou a regra sociocultural do “sou infeliz, mas tenho marido”, simplesmente, porque era daquelas mulheres que não precisam do “amparo” de um homem, ou seja, não é porque era jovem e bonita que tinha de ser “bela, recatada e do lar”, sustentada por homem. Muito menos era daquelas mulheres que dependem de “chancela social”**. Era uma mulher independente e determinada, que sabia o que queria da vida. Mulheres jovens e bonitas podem também ser inteligentes e bem sucedidas profissionalmente. Mulheres jovens e bonitas não são meros objetos de decoração, desprovidos de sentimentos e de capacidades intelectuais e cognitivas. Mas, isso tem um preço, e essa moça pagou seu preço, com a própria vida. Mulheres independentes têm de ser “disciplinadas”. Elas assustam, agridem, porque desestabilizam lugares, desafiam papéis. A insegurança do homem, diante dessa mulher, foi aflorada, sua autoridade foi desafiada e seu orgulho foi extremamente ferido: “se não é minha, não pode ser de mais ninguém”. Sim, porque ELE é dono! A insegurança aciona e mobiliza a posse, o controle e o autoritarismo. Essa mulher estava num ponto inerseccional perigoso e sofreu uma colisão. ELE a matou e fugiu. ELE também não quis enfrentar as consequências do que fez. ELE também não tem de enfrentar as consequências do que fez. A sociedade sempre teve uma justificativa ideológica histórica para desculpar os excessos dos “homens de bem”. Mas, agora, "foi mal". Parece que o mundo mudou. Talvez, não tenha desculpas. Talvez, ELE tenha de pagar pelo crime. Talvez, matar mulher não seja mais um capital cultural de prestígio, um bem de raiz, um legado de família, como sempre foi. Talvez!***
Por fim, selecionei o caso do filho que desobedece à autoridade do pai. O pai (e também a mãe) tem planos, desde que sabe que vai ser pai de meninO. Assim como também teria planos se soubesse que seria pai de meninA. A nomeação classificadora – meninO/meninA – com o gênero do bebê marcado, gramatical ou lexicalmente, a depender das regras da língua e das regras da sociedade e da cultura do povo que legisla sobre suas práticas sociolinguísticas, dá existência, situa a criança no mundo, dá-lhe um lugar social, mesmo antes de ela nascer. Por essa classificação, seu caminho na vida começa a ser traçado e cabe a ela ir seguindo. O pai é engenheiro, logo, seu filho deve ser engenheiro, ou médico ou dentista, tanto faz. A filha do “compadre X” (sócio, irmão da igreja, da maçonaria etc) é uma boa moça pra você se casar e ter filhos. O que não pode acontecer é um acidente de percurso, do tipo: meu filho virar gay?! ou querer ser professor, absurdo! Criado com tanto amor e carinho! Será!!! Alg@ns filh@s, assim como algumas mulheres e algu@ns estudantes, querem seguir seu caminho, querem ter vida própria, querem tomar suas próprias decisões, querem SER. Mas, para os pais e mães, o TER importa mais. O desejo de controle leva ao autoritarismo, à perda do controle e ao extremismo. A simplificação como busca de entendimento reduz os acontecimentos a motivos racionais e palpáveis. Entretanto, um acontecimento nunca se reduz a um só motivo. A divergência ideológica entre gerações, entre pais, mães, e filh@s, é histórica, é muito antiga e, por si só, não leva um pai, ou uma mãe, a matar um filho. Uma pessoa para matar outra, primeiro, mesmo tendo um forte motivo, como a autodefesa da vida, tem de estar armada. Por que aquele homem estava armado? Ele tinha porte de arma? Por quê? É a onda de ódio que assola o país, ok. Que ódio é esse, que numa discussão, que, segundo está informado pela imprensa local (temos de lembrar que a imprensa local, todas elas, nunca é, nem sequer minimamente, confiável), já era corriqueira, faz com que um pai mate seu próprio filho, seu único filho? (O mesmo se aplica à mãe, que matou recentemente seu filho, ou a Alexandre Nardoni e por aí vai). E por que ele estava armado? Por que, justamente nesse momento da discussão? ELE não aceita as escolhas do filho e, por isso, o mata. Mata o filho e se mata. Mata-se, porque o preço do pecado é a morte? Não! Mata-se, porque não pode enfrentar esse seu feito. A sociedade talvez até desse um jeito de desculpá-lo, como está dando. Talvez! Mas ele não teria seu próprio perdão. Matou-se para não enfrentar, afinal, nunca teve de enfrentar nada na vida, sempre mandou e foi obedecido. Dessa vez, teria de enfrentar a si mesmo, não teria como transferir a culpa para outros. Matou-se! (O duplo, Cisne negro, Clube da luta etc.).****
Há no autoritarismo e na necessidade ou desejo de controle uma pitada de insegurança. Pessoas arrogantes e autoritárias (mesmo aquelas disfarçadas de humildes e democráticas) parecem ser, no fundo, inseguras. Sabe aquelas pessoas delicadas, gentis, humildes, éticas, mas que, ao serem questionadas, perdem o controle, a compostura, descem do salto? Pois é! Há muitas, que se dizem isso, aquilo, mas não admitem ser questionadas, sequer minimamente. Há um problema aí, talvez seja insegurança, talvez seja capricho, coisa de gente mimada. Talvez!
A desestabilização da ordem constituída, desde 2013, no Brasil, principalmente, com os movimentos estudantis secundaristas, chegando aos movimentos nas universidades, mostrou o que é liderança e o que é gerenciamento nesse avançar de século XXI. Administrar quando tudo, ainda que aparentemente, vai bem, é fácil. Administrar crise é outra coisa e é aí que o líder se revela, ou não. Ser líder não é, nem de longe, ser autoritário. O líder não precisa ser autoritário. Isso vale para o ambiente escolar e para o ambiente familiar; para as relações pessoais, entre gêneros, homem/mulher, pai/filho, mãe/filh@, e para as relações profissionais, entre categorias, como diretor/professor/estudantes, professor/estudantes.
O que a crise 2013-2016 revelou é que as pessoas em suas relações pessoais, familiares e profissionais só sabem mandar e ser obedecidas. Fora desse modelo de relações, ninguém sabe como proceder. Mas, o mundo está em profunda transformação, os lugares e os papeis estão desestabilizados, tudo passa por uma profunda recomposição. As pessoas que se encontram nas zonas de intersecção, são os alvos das colisões, são as vítimas dos excessos, sem dúvida. Eu não vou, de jeito nenhum entrar no jogo da hipocrisia sócio-discursiva de dizer que tod@s são vítimas e que tod@s sofrem. NÂO MESMO! As informações e as formações estão aí há décadas. Os grupos e os indivíduos que promovem as colisões são os mais bem formados e informados e são aqueles que não querem perder, nem minimamente, os privilégios, ainda que privilégios simbólicos. A sociedade que legitima e que autoriza essas ações é responsável por elas. As ações, individuais ou coletivas, e os discursos-ambientes de resistência a mudanças que visam promover justiças sociais é responsável por cada colisão e por cada morte resultante dessas colisões.

*Informações baseadas em vídeos que circularam nas redes sociais e em depoimentos d@s estudantes.
**Conceito desenvolvido em Rezende (no prelo), com base em Dominique Maingueneau.
***Informações obtidas nas mídias sociais de circulação local e nacional.
****Informações obtidas nas mídias sociais de circulação local e nacional.   

domingo, 15 de janeiro de 2017

Diretrizes 2017 do Obiah


Obiah Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais da Linguagem, cadastrado no Diretório dos Grupos de Pesquisas do Brasil na base do CNPq (plataforma Lattes), tem como líder Tânia Ferreira Rezende (UFG) e como vice-líder Shirley Eliany Rocha Mattos (UEG-Anápolis) e é um grupo que se organiza e se desenvolve por meio de:
(i) pesquisas (estudo avançado para busca de soluções ou novas questões a um problema teórico ou empírico, com objetivos pontuais e definidos), 
(ii) estudos (reflexão teórica para apropriação de conceitos e pressupostos teóricos e de postulados metodológicos para a construção do arcabouço teórico embasador das pesquisas em suas diferentes fases), 
(iii) difusão de conhecimento (Jornadas de Estudos em forma de rodas de conversa e seminário; apresentação em eventos e publicação de artigos em periódicos, trabalhos completos em anais).

A adesão de novos membros ao Obiah ocorre no início do ano, por indicação de um membro efetivo e por convite das lideres do Grupo. Qualquer membro efetivo ativo do Grupo pode indicar um novo membro. A indicação será apreciada pelo coletivo, mediante apresentação de carta de intenção e plano de estudo pela/o interessada/o. Uma vez aprovada a nova adesão, uma das líderes encaminha o convite à/ao interessada/o. 

Por mais que seja importante a atuação em todas as frentes de trabalho do Grupo, para ser membro do Obiah não precisa necessariamente atuar em todas elas, desde que as opções sejam bem justificadas e que a justificativa seja plausível para o Grupo e não somente para o indivíduo. Por outro lado, ao assumir uma frente de trabalho, o mínimo que se espera do/a participante é que tenha compromisso e responsabilidade com suas tarefas. Trata-se de um grupo  de estudos avançados, portanto, tem de necessariamente haver produção, de algum tipo. 

Grupo de Estudos do Obiah se reúne regularmente na sala 43, piso inferior do Bloco Coralina da Faculdade de Letras/UFG, com agendamento previamente divulgado. O objetivo do estudo avançado é construir um arcabouço teórico e propor metodologias que orientem as pesquisas do Grupo. A proposta é investir na formação dos/as pesquisadores/as do Grupo. Para isso, as pautas de leitura são decididas e atualizadas pelo Grupo a cada semestre letivo. Para participar dos estudos do Grupo são necessárias disponibilidade de tempo e disposição para dedicação aos estudos desenvolvidos pelo Grupo, pois é imprescindível a leitura prévia dos textos indicados e a elaboração de um esquema também prévio para a discussão. Ao final de cada encontro de estudos, cada um/uma dos/as participantes deve redigir um texto contendo entre 400 e 600 palavras para sistematizar as interpretações e as reflexões e também para exercitar a prática escrita e a documentação de notas de leitura. Não serão toleradas faltas nem atrasos. Para cada rodada de leitura, será indicado/a um/uma coordenador/a.   

As Jornadas de Estudos Interculturais Transdisciplinares do Obiah são organizadas por uma comissão formada a cada ano e se desenvolve em forma de rodas de conversa e de Seminário científico. As rodas de conversa são um espaço para discussão e interpretação de teorias, de conceitos, e de apresentação de propostas de trabalho. As rodas de conversa podem ser propostas e realizadas por qualquer membro efetivo e ativo do grupo e é sempre aberta à comunidade em geral. A proposta deve ser encaminhada contendo o tema, o nome do/a articulador/a, o resumo da roda, o título, nome do/a expositor/a e resumo de cada fala; a data e o horário da realização. O/A articulador/a é responsável por: encaminhar a proposta, reservar o espaço, divulgar amplamente o evento; articular a conversa, de acordo com as normativas das rodas (20 minutos para cada exposição, debate entre os membros da mesa e debate entre os membros da mesa e a plateia); certificar os/as expositores/as e os/as participantes; elaborar o material final para publicação no blog do grupo. O Seminário Anual do Obiah é um evento científico, de apresentação de resultados de pesquisas, aberto à comunidade em geral. Somente pode apresentar trabalho no seminário o membro do Obiah que tiver resultados efetivos de pesquisa. Todas as submissões estarão sujeitas à avaliação pela Comissão Organizadora. São apresentadas ao final do Seminário as propostas de estudos dos novos membros do Grupo. As Jornadas preveem a organização de produtos em forma de livros e artigos acadêmicos para publicação em periódicos.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FELIZ 2017!!!! SÃO OS VOTOS DO OBIAH

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 Quatro pontos tem minha religião
Anamari Souza


Quatro pontos tem a minha religião, faço deles a minha filosofia e faço deles a minha ação, viva, creia, ame e faça, essa também é minha oração, viva sua filosia, ame a sua arte, creia na sua religião e faça a sua parte, mas não use sua religião pra tentar reprimir o outro, somos sete bilhões de mentes no mundo e querer que todo mundo creia na mesma coisa é no mínimo papo de louco. Eu respeito todos que tem fé, eu respeito todos que não há tem, eu respeito que crê em um Deus, eu respeito que não crê em ninguém, eu gosto de que tem fé no verso, eu gosto de quem tem fé em si mesmo, eu gosto de quem tem fé no universo, e eu gosto dos que anda a esmo, um abraço pra quem é da ciência, um abraço pra quem é de Deus, um abraço pra quem é da arte, e um abraço pra quem é ateu, axé pra quem é de axé, amém pra quem é de amém, blessed pra quem é de magia, e amor pra quem é do bem, intolerância religiosa é a própria contradição, religião vem do latim religare que significa união, então pare de dividir o mundo entre os que vão e os que não vão para o paraíso, o nosso mundo tá doente em tudo enquanto nos perdemos tempo brigando por isso, ao invés de dividir as religiões entre as que são do mal e as que são do bem, que tal botar sua ideologia no bolso e ajudar aquele moço que de frio morre na rua desamparado e sem ninguém, os grandes mestres já disseram que precisamos de união, então porque não fazer do respeito também uma religião.
Com o nosso abraço obiahno: Ana Elizabete, Bruno Carneiro, Karla Castanheira, Pedro Augusto, Paulo Ricardo, Nunes Xavier, Lucimar França, Juan Chacón, Hildomar Lima, Amanda Moreira, Nathália Sousa, Ludmila Almeida, Sandra Daniel, Luna Gomes, Denise Alves, Fabiana Cristina. 

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A decolonização do pensamento passa pela decolonização epistemológica que só pode ser construída pela educação escolar


Há mais de quatro décadas que intelectuais latino-americanos/as defendem a urgente revolução epistemológica para promover a decolonização do pensamento. Essa revolução está sendo preparada e tentada, mas, da mesma forma, está sendo também fortemente coibida. Um dos principais entraves encontrados é a robotização do pensamento, massificada pela mídia. A formação social de opinião é uma luta desigual e injusta, em que a escola, com professores/as, com suas imagens desgastadas e desqualificadas socialmente, digladia com a mídia, com seus mitos e celebridades, idolatrados socialmente. É evidente que vence a robotização, as ideias e opiniões programadas.
Para ilustrar, eu cito o fato de as pessoas, muitas delas instruídas, ou pelo menos escolarizadas, repetirem que a Hillary Clinton não pode ser eleita presidente dos EUA, que os EUA não merecem essa presidente, afinal “aqueles seus e-mails...”, e o argumento não passa disso. Se questionadas sobre o teor ou a gravidade do teor de tais e-mails, nada ou muito pouco sabem dizer (eu poderia listar inúmeros exemplos exatamente iguais, inclusive sobre a situação política brasileira, mas é dispensável). Essas pessoas são meramente seres robotizados, reproduzindo, automatizadamente uma programação midiática. Essa é a situação social, mas o mesmo tipo de reprodução, considerada, claro, mais sofisticada, ocorre também na academia. A única diferença, nesse caso, entre a mídia e a academia, segundo Edgar Morin, em Introdução ao pensamento complexo, é que [e]nquanto os mídias produzem a baixa cretinização, a Universidade produz a alta cretinização (MORIN, 2005, p. 12).
Nas universidades, os templos sagrados da construção do conhecimento científico, também são programados seres robotizados por outros seres robotizados, com um agravante: nas universidades, há a autorização e a legitimação da ciência. A robotização universitária é científica, é teórica, tem rigor metodológico, ou seja, está enquadrada. Por isso, nas universidades, os/as profissionais, estão autorizados/as a formar e a discursivizar uma base teórica capaz de transformar a educação básica para, assim, transformar a sociedade.
A triste constatação é que, devido à colonialidade epistemológica, sabemos que nas universidades, a maioria dos/as profissionais não é capaz de transformar nem mesmo seu próprio olhar, sua própria visão de mundo; não é capaz sequer de questionar sua epistemologia eurocentrada. Então, como poderão esses/as profissionais transformar a sociedade? A grande maioria dos/as profissionais universitários/as é incapaz de se abrir e, pelo menos, de tentar ver os fatos de forma diferente do que ordenam as teorias e os/as teóricos/as que moldam seus pensamentos. Eles/Elas são seres incapazes de se criticarem a partir de outras formas de ver/ler o mundo. A grande maioria ainda sequer sabe que existe Filosofia fora da Europa, conforme critica Dussel:
Bueno, uno ha estado entregado a este mundo de la filosofía desde los quince años de edad y ve la complejidad de este lenguaje de lenguajes, este metalenguaje muy complejo, que es una cierta visión orgánica, argumentada, histórica de la realidad. Es lo que va detrás de siglos, del pensamiento de Platón en Grecia, de Confucio en China o del Upanishad en la India. Y lo que estamos descubriendo es un pensamiento crítico que en América Latina comenzó hace cuarenta años. Cuando planteamos una filosofía latinoamericana de liberación se le quiso dar un sentido anecdótico. Lo profesores en Estados Unidos y Europa lo veían como el producto de una incultura, no de una cultura latinoamericana. Teníamos que golpear las puertas de las universidades, y nos rechazaban, no nos permitían ser profesores. Ahora (esta doctrina) ha cobrado una fuerza y el pensamiento crítico debe dar un horizonte de largo plazo, pues una revolución que no llega a una descolonización del pensamiento, sigue siendo colonial. Ni la izquierda esta vacunada de seguir siendo colonial. Hasta los sectores más vanguardistas, entre comillas, porque son dogmáticos.
La tarea es difícil, pero ya la empezamos. Lo que debemos es tomar conciencia de cosas que estamos elaborando, que no dependen de EEUU o Europa, es algo nuestro porque partimos de una realidad distinta, hemos aprendido a pensar y ahora tenemos que ser responsables y hacer cambios mucho más profundos. Debemos tomar conciencia de que tenemos en la cabeza, en el fondo, una interpretación eurocéntrica de todo, tan profunda que cuando uno da ciertos ejemplos, la gente se espanta porque cómo es posible que yo viera las cosas de un modo tan unilateral, a la europea, negándome a mí mismo y justificando la dominación que sufría. Debemos entender que el último nivel de la dominación, y al mismo tiempo de la transformación histórica, es una cierta visión del mundo.

A única preocupação segura desses/as intelectuais é com a manutenção da forma, das regras e da disciplina (obediência). Sim, pois fora das caixinhas do mais do mesmo não conseguem entender, logo, não sabem o que é e não sabem o que fazer. Pessoas que não sabem pensar, tornam-se escravas das regras e das normas. Por isso, se o/a locutor/a (os/as pares, os/as estudantes) não reproduzir os/as autores/as consagrados/as, portanto, conhecidos/as, o cânone, será severamente penalizado/a por seus/suas interlocutores/as. Enfim, a ciência é o culto à “inteligência cega” (Morin).

Por tudo isso, é urgente a decolonização do pensamento, insisto. Dussel, considerando os processos e regimes capitalistas, econômicos, e não somente a dominação política e administrativa, defende que precisamos ainda nos “descolonizar”, que ainda estamos sob a colonização. Conseguimos a independência, não somos colônia mais, nem de Espanha nem de Portugal, só para ficar nas ex colônias luso-espanholas. Entretanto, somente mudamos de colonizador. Passamos para a colonização da Inglaterra e depois, até o momento, para a colonização dos EUA:

Y a eso hoy le hemos llamado descolonización epistemológica. Epistéme significa ciencia, por lo que sería una descolonización filosófica, científica y tecnológica. Tenemos que ver que nuestro mundo latinoamericano, el que tenemos por delante, es colonial. No debemos seguir creyendo que ya en 1810 o 1820 nos liberamos de España y pasamos a ser independientes, pues caímos en manos de Inglaterra y EEUU, y por eso, como lo habían dicho Mariátegui y Martí, nos toca la segunda emancipación. Estamos en una situación colonial agobiante, pero mucho más sutil que antes y mucho más extractiva de nuestras riquezas. Los españoles nos robaron pequeñas cosas. Ahora nos roban hasta el alma. La dominación no es que haya un soldado en un destacamento español a cientos de kilómetros, sino que se metan en nuestras camas con la televisión y la propaganda. Por ejemplo, la oposición a esta Revolución Bolivariana es no solo de un conservadurismo económico, político, burgués, liberal: es histórica, cultural, y hasta espiritualmente y cristianamente colonial, no saben pensar lo nuestro, desprecian lo nuestro. Y el mismo pueblo a veces, tal es la influencia de la educación, los medios de comunicación, la televisión, llega a despreciarse a sí mismo y anhela salir. No podrá hacerlo, tendrá que aprender a revalorizar lo propio y a partir de allí construir un proyecto de felicidad.


Em outra vertente política, e é essa a que sigo, somos, nas américas, países independentes, política, administrativa e economicamente. Todavia, não temos independência epistemológica, o que nos mantém presos/as a valores e princípios da colonização: isso é a colonialidade. A colonialidade se mantém na constituição do que e como somos – colonialidade do ser; no que e como pensamos – colonialidade do pensamento; na nossa visão de mundo, em como significamos, interpretamos e representamos o mundo – colonialidade epistêmica e colonialidade da linguagem. Essas colonialidades não são fragmentadas, são sempre interseccionadas. Estão na base de nossas (des)obediências diante da ordem do mundo. A colonialidade epistêmica é ainda a certeza e a manutenção dos modelos científicos eurocêntricos na construção do conhecimento (matrizes, currículos, projetos e tarefas escolares, teorias e metodologias etc). 

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O abuso de poder do oprimido emana da opressão

sobre o Grande ato contra a reforma do ensino médio e contra a Pec 241 em Goiânia no dia 18 de outubro
Foto de Vitor Hugo (https://www.facebook.com/events/571563116377750/576050229262372/?notif_t=admin_plan_mall_activity&notif_id=1476804596264315)

A mímica surge como objeto de representação de uma diferença que é ela
mesma um processo de recusa. A mímica é assim o signo de uma articulação
dupla, uma estratégia complexa de reforma, regulação e disciplina que se “apropria” do Outro ao vislumbrar o poder. (BHABHA, 1998: 130)

Cada vez que vejo a atuação da polícia militar de Goiás sobre a população que ela deveria defender me sinto preocupada com o papel da educação pública. Foi assim que me senti ontem. Sim, participei do Grande Ato contra a reforma do ensino médio e contra a PEC 241, que aconteceu em Goiânia nesse 18 de outubro. Fui por mim, por minha filha, que não perde um ato político desde 2013, e fui pel@s estudantes que estão em luta política e corporal contra os desmandos do governo há tempos. Era um ato pacífico, organizado, politicamente intenso e assertivo. A mensagem estava dada, explicitamente. E eu lá ao lado de colegas da UFG e da educação básica. Ao longo do trajeto, havia muitas viaturas da polícia e um helicóptero sobrevoava o cortejo (rsrsrs). Por terra, a pé, éramos acompanhad@s pela intimidatória polícia, todos com cara de poucos amigos. Havia uma policial, com ar de indiferença. As jovens estudantes, em frente à Faculdade de Direito, disseram: "vamos atravessar na faixa de pedestres, pra fazer direitinho", e foram, fazer como manda a regra. O policial, quando viu a faixa cheia de estudante, apitou, chamando os carros para a travessia, desrespeitando a regra, mostrando que a prioridade não é o pedestre nem é a vida humana. Em tempo de opressão, não basta cumprir a regra nem fazer "tudo direitinho". O dominado deseja subjugar seu semelhante para se sentir superior. É um tipo de exercício de poder. Em situações de crise, em que o poder constituído é ameaçado, aumenta a necessidade de demonstração de força, porque "O Homem, que, nesta terra miserável/ Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera" (Augusto dos Anjos). É a “paranoia do poder colonial” (BHABHA, 1998), que sustentou a ditadura militar por vinte anos e que, agora, após mais de trinta anos, está sendo fortemente revitalizada no governo federal ilegítimo, exatamente por sua ilegitimidade, que o torna frágil e inseguro. Essa paranoia reverbera em Goiás como a paranoia do poder do coronelismo. O coronel goiano reproduz a imitação de si para intimidar o dominado e o manter no seu devido lugar e, assim, evitar que ele ameace o poder. Foi isso que vi no Grande Ato. Para ilustrar, uso como metáfora, a saga Anjos da noite, que conta a história da guerra entre os vampiros e os lobisomens (lycans).  Anjos da Noite: A Rebelião, lançada em 2009, sob a direção de Patrick Tatopoulos, tem participação especial de Beckinsale e Michael Sheen e Bill Nighy como os protagonistas. A Rebelião é um dos mais interessantes filmes da saga, porque os lycans se revoltam contra os vampiros, seus algozes, e os vencem. O que salva os lycans, permitindo que eles reajam e vençam seus algozes, é que, sendo metade homens e metade animais (lobos), eles são parcialmente humanos, e sua humanidade permite que, mesmo na opressão e na subjugação, eles mantenham sua capacidade de pensar e de sentir, portanto, sua capacidade de agir e de se revoltar. Esta é a chave para o entendimento do que disse Fanon sobre a relação entre os colonizados e os colonizadores, que uso para interpretar o comportamento dos policiais militares de Goiás, para além da mímica de Lacan e Bhabha. Os policiais são os lycans e imitam os vampiros, seus algozes: agridem, batem, açoitam... principalmente, aquel@s que estão desgarrad@s do bando. Esse comportamento dos policiais, diferentemente dos lycans, é uma evidência explícita de medo. São covardes. Os coronéis têm medo de que seus potenciais subjugados consigam ocupar os seus lugares e para evitar que isso aconteça, dão demonstrações cruéis de seu mandonismo. Os coronéis, os ditadores, da mesma forma que os colonizadores, vivem sob ameaça, sob a sombra e o medo do subjugado. Sua preocupação é treinar e controlar lycans para guardar seu lugar e manter seu domínio. Mas eles sabem que lycans são também homens, pensam e sentem. Seu lugar não está seguro, seu domínio nunca está mantido. O coronel tem medo e faz do seu medo movimento de ataque. Os lycans imitam o coronel e também têm medo, um medo duplo: medo do coronel, seu algoz, e medo dos subjugados, seu libertador. Os lycans imitam o coronel, fazem do seu medo movimento de ataque e atacam aquel@s a quem deveriam defender, seu igual, por medo de ser igual, por desejo de ser superior. A liberdade é dialética. Haverá liberdade se pudermos libertar, ao mesmo tempo,  o coronel de seu coronelismo, os lycans de sua ferocidade e os subjugados de sua subjugação (FANON). Isso somente é possível pela educação, uma educação libertadora, porque enquanto o sonho dos lycans for imitar os coronéis, a educação não é libertadora (PAULO FREIRE). E isso explica o ódio ao intelectualismo. Um ódio que é também medo.   



domingo, 25 de setembro de 2016

Posturas decoloniais de enfrentamento e luta em defesa da educação

“Tapuia inventa tudo, inventa até o próprio Tapuia. 
(Ser Tapuia é ser construtor até do próprio Tapuia)”
                                                                                                       (Prof. Márcio José de Jesus Tapuia)

Prédio da Escola Estadual Cacique José Borges, Terra Indígena Carretão.
Foto: Flávia Passos
Ser Tapuia é uma luta constante, é se reinventar todos os dias, é viver cada dia enfrentando as pessoas que se dedicam a tornar sua vida mais difícil. Por isso, afirma a professora Tapuia Eunice Rodrigues, “ser Tapuia é estar sempre com o pé atrás”, porque nunca se sabe o que está por vir, sempre se tem a certeza que o que vem requer luta e enfrentamento. As lutas históricas do Povo Tapuia são pela garantia da vida e pela sobrevivência: são lutas em defesa de suas terras, pelo direito a viver sua cultura, a falar sua língua, à educação escolar. São admiráveis a postura política e as estratégias de enfrentamento do povo Tapuia frente aos desmandos e aos abusos que lhes são imputados pelas autoridades que deveriam defender seus direitos.


Oficina de artesanato Tapuia. Foto: Flávia Passos
Estivemos, nós do Obiah Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais da Linguagem, a Profª Luciana de Oliveira Dias do Coletivo Rosa Parks, o Pe. Joaquim José Neto e a Denilza, da Subsecretaria de Educação de Rubiataba, no 24 de setembro de 2016, na Terra Indígena Carretão, em uma roda de conversas com os/as Tapuia: as professoras Eunice Rodrigues, Adriana Silva, Silma Aparecida Costa, o professor Cleiton, o Cacique Dorvalino Augusto, o Vice-Cacique Welington Vieira Brandão, e a Diretora da Escola Estadual Indígena Cacique José Borges, Maria Aparecida Ferraz de Lima.
A Profª Ana Elizabete Barreira Machado iniciou a conversa apresentando o resultado de sua pesquisa de mestrado, intitulada “Posturas Sociolinguísticas Decoloniais do Povo Tapuia do Carretão”, defendida e aprovada como dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Letras e Linguística da Universidade Federal de Goiás. Trata-se do retorno da pesquisadora com o relatório da pesquisa para submeter à discussão com os/as interlocutores/as da pesquisa. Foi um debate caloroso e emocionado. Indescritível! Essa foi a legítima defesa do trabalho.
Equipe do Obiah na Roda de Conversa na Escola Estadual Indígena Cacique José Borges
Foto: Flávia Passos
Depois, discutimos sobre a importância de solicitarmos a inclusão do Português Tapuia no Inventário Nacional da Diversidade Linguística e também seu tombamento como patrimônio cultural imaterial da comunidade Tapuia. Foi uma conversa intensa e foi impressionante perceber como a concepção de linguagem dos/as Tapuia é politizada e transgressora, tendo-se como referência as concepções hegemônicas de linguagem, sobretudo as concepções herdeiras das epistemologias eucentradas e cristãs-cartesianas. Nosso último ponto de conversa foi sobre a urgência de políticas públicas para a educação escolar indígena. E aí, então, recebemos muitas lições de lutas e enfrentamento. Minha reflexão diante de tudo o que conversamos é: a Constituição da República Federativa do Brasil garante aos povos indígenas educação escolar diferenciada, em sua língua, respeitando seus processos próprios de aprendizagem. Por que, então, os povos indígenas têm de lutar tanto por direito à educação escolar diferenciada? “Como é que pode? Será que esse povo não conhece a lei?” Pergunta o Prof. Welington Brandão. A Profª Eunice Rodrigues discorda, declarando “Eu acho que é falta de interesse mesmo”.

Foto: Flávia Passos
Há uma tensão entre o cumprimento da Lei, de garantia da educação escolar diferenciada aos povos indígenas, e o entendimento do que seja a educação escolar indígena. No planejamento e na gestão da educação escolar indígena, ninguém nega aos povos indígenas seu direito à educação escolar intercultural. O problema é epistemológico, pois transfere-se para a escola indígena o modelo (falido) de educação das escolas não indígenas. Os/As gestores/as da educação veem os/as indígenas como crianças, porque o dominador, em sua superioridade, para se manter superior, infantiliza o dominado, é uma estratégia de dominação (baseado em F. Fanon, em Os Condenados da Terra). Por isso, os/as gestores/as educacionais acreditam que sabem o que é melhor para os/as indígenas. Mas, os/as Tapuia, que sabem, de fato, o que é melhor para eles/elas, resistem, não aceitam, enfrentam. Querem uma escola Tapuia, construída por eles/elas para eles/elas, de acordo com sua visão de mundo, com sua epistemologia, com suas concepções. Uma escola que não se preocupe em ensinar apenas as letras, mas que promova a aprendizagem das palavras, da palavramundo e das outras palavras, que permita o aprendizado do sentido da ação e do fazer, do agir e do participar e não somente do obedecer; uma escola que permita pensar, refletir e desafiar. Uma escola que promova a busca de respostas a questões como por que o direito de propriedade que proíbe o Tapuia de entrar na fazenda vizinha para visitar o cemitério ancestral de seu povo não impede o fazendeiro de invadir as terras dos Tapuia e lhes tirar o sustento? Sim, uma escola que ensine que não existe direito natural e que promova a leitura das contradições e das desigualdades impostas à vida pelas relações de poder da sociedade.  


sábado, 17 de setembro de 2016

Foi desvio de verba ou de atenção? O que vem lá?


"[...] Eu percebi que quando a gente ganha uma eleição, ô Wagner, a gente num ganha o poder, porque o poder é ramificado nas instituições, que existem para controlar o próprio governo; e que a burocracia de segundo e terceiro escalão, muitas vezes, tem mais força que o Presidente da República, porque não é pouca das vezes em que você toma decisão numa reunião ministerial, quando você sai anunciando ela pelo Brasil afora, um ano depois você descobre que ela tá parada na gaveta do cidadão, porque o Iphan num concordou, porque a Funai num concordou, porque o Ibama num concordou, porque o tesouro num concordou. Você vai descobrindo que você é enganado dentro da máquina. Aí eu cunhei a seguinte frase: o Presidente é uma locomotiva; a máquina pública é a estação; todo dia passa uma locomotiva nova, mas a estação tá lá, impávida; ela não muda; ela tá lá. Os funcionários são os mesmos, que são tudo concursado, tão lá. Eu de vez em quando falo que as pessoas achincalham muito os políticos, mas a profissão mais honesta é a do político. Sabe por quê? Porque todo ano, por mais ladrão que ele seja ele tem que ir pra rua, encarar o povo e pedir voto. O concursado não, se forma em uma universidade, faz um concurso e tá com o emprego garantido pro resto da vida. O político, não; ele é chamado de ladrão, é chamado de filho da mãe, é chamado de filho do pai, é chamado de tudo, mas ele tá lá, encarando, pedindo outra vez o seu emprego e, muitas vezes, consegue; outras vezes, num consegue [...]". 

Leitura do texto:
1) Enquadre textual (frame): os concursados fazem parte da máquina pública de segundo e terceiro escalão, que, na figuração linguística de Lula, é a estação, que nunca muda, que não presta conta ao povo de suas ações e de seus procedimentos. 
Então, se você, mesmo sendo servidor/a público/a federal, concursado/a e mesmo sendo corrupto/a e desonesto/a, mas se não estiver lotado/a em um órgão de segundo ou terceiro escalão, de alguma forma, diretamente ligado à Presidência da República, não precisa ficar ofendido/a, de luto, choramingoso/a, ok, você não faz parte da estação;
2) Ponto de vista defendido (contra o consenso obrigatório que "todo político é desonesto", "é proibido dizer que político é honesto": os políticos são honestos e os concursados são desonestos. 
A interpretação da Globo e da Veja, guiada pela visão maniqueísta de mundo, é tendenciosa, é maliciosa; na verdade, os políticos, de quatro em quatro anos, são postos à prova, ao passo que os/as servidores/as, aqueles/as do segundo e do terceiro escalão, não você, do estado ou do município, depois de concursados/as nunca mais são novamente reavaliados/as. 
Fica a dica: se os políticos continuam onde estão e se continuam roubando, o/a desonesto/a é o/a eleitor/a que o/a mantém lá; muito mais desonesto/a do que ele/ela, pois ele/ela se põe à prova e passa; ele pede o emprego e o emprego lhe é dado. Pensemos sobre isso. 
Lula inclusive constrói uma alegoria para ilustrar seu ponto de vista, que equivale ao nosso "quer que eu desenhe?" para não deixar dúvidas. Logo, os repúdios às suas declarações nada mais são que "declarações de culpa no cartório" ou, em bom português: a carapuça lhe serviu, cabra!  

Conclusão:
Antes de permitirmos que os/as tutores/as legítimos/as façam a leitura e nos digam qual é a interpretação do texto, façamos nós mesmos/as nossa leitura e nossa interpretação de texto; e antes de nos sentirmos ofendidos/as, façamos nosso "exame de consciência" sobre nossa condição e comprometimento de "concursado/a": Qual é o problema? Eu não tenho problema nenhum de me por à prova a qualquer momento, tenho prova e convicção de que as bancas que me aprovaram no concurso público, no mestrado (seleção, qualificação e defesa) e no doutorado (seleção, qualificação e defesa) foram bancas ilibadas, não foram bancas de amigos, compostas para me favorecer. Antes de criticar os políticos, critiquemos a nós mesmos/as que os/as elegemos, a cada pleito, mantendo-os/as em seus empregos. Serão mesmo eles/elas os/as desonestos/as ou nós que os/as elegemos, muitas vezes, às expensas de nossos valores e princípios, em nome de valores e interesses escusos?! 
O mito da expulsão do paraíso naturalizou o comportamento da busca de justificativa na tentação. Há sempre uma serpente a tentar Eva que tenta Adão e, no final das contas, a responsabilidade nunca é minha, é sempre de alguém. Olha só, o jardim do edém, Eva e Adão nunca existiram! Que a serpente não continue a decidir por nós nem a conduzir a nossa consciência.       

domingo, 3 de julho de 2016

Trajetória de Estudantes Surdas do Curso de Letras: Libras da Universidade Federal de Goiás

Conhecer melhor a história das mulheres surdas
estudantes do curso de Letras: Libras
A roda de conversas foi articulada pela estudante Poliana, aluna-ouvinte do curso de Letras: Libras da Universidade Federal de Goiás. 
O primeiro desafio da tarde foi criar o sinal para Carolina Maria de Jesus, autora negra homenageada da 2ª Jornada de Estudos do Obiah. O desafio foi logo vencido com a criação do sinal pelo estudante surdo Leonardo Ferreira 
Na sequência a articuladora da Roda fez a abertura, tecendo considerações sobre a situação sociolinguística d@s surd@s brasileir@s no ambiente familiar,preponderantemente, ouvinte em língua portuguesa. 
A Libras foi a língua oficial de comunicação da roda de conversa, sendo interpretada para o português por uma intérprete e um intérprete do quadro de profissionais da Faculdade de Letras. Deu-se início à roda de conversas com a participação de quatro estudantes surdas, com a intermediação da e do intérprete, conforme mencionado, visto que na audiência havia muitas pessoas que não sabem Libras. As estudantes utilizaram também textos escritos por elas e projetados em data-show. 

Renata

No contexto familiar, não acontecia comunicação. Minha infância foi marcada por intensas terapia de fala. Os homens da minha família, pai e avô, exigiam que eu oralizasse. Minha avó, mãe e irmã, compreendiam minha especificidade e se comunicavam por gestos. Até os 17 anos, nunca tive intérprete. Já fui constrangida em sala, por ser obrigada a fazer leitura em voz alta. Não tinha vínculos afetivos profundos na escola. Cresci sozinha. Na escola era rotulada como deficiente. Quando tive intérprete pela primeira vez em outra escola, quando tive contato com outros surdos. Neste período, aprendi a libras.  Relação conflituosa com o português. Fui exigida a me expressar bem nesta língua, mas não fui ensinada. Mesmo “falando” oralmente o português, tinha marcar de uma surda expressando nessa língua. Hoje meus pais e familiares me pedem desculpas por não aceitar a surdez enquanto identidade cultural.

 
Thalia Teixeira Fernandes

Nasci surda e tenho uma irmão gêmea ouvinte. Não houve nenhuma complicação durante a gestação. O contexto familiar foi marcado por solidão e pouca interação com os pais. Na escola, sofri perseguição por ser surda. No contexto social, consegui ter vínculos afetivos mais profundo com as pessoas surdas, a partir do uso da língua de sinais.

Greice Kelly

Minha experiência foi conflituosa. Minha surdez foi adquirida, após convulsões ainda bem novinha. Não conseguia me expressar bem em língua portuguesa. A língua portuguesa me classificava. Fui rotulada de preguiçosa.

As discussões conceberam a Libras como língua de instrução, espaço de conflitos e instrumento de lutas e conquistas sociais e políticas. Foram feitas reflexão e provocações para retomada de novas posições. Todas as falas foram marcadas por muita emoção, com relatos de momentos de solidão, de situações conflituosas no contato com a língua portuguesa, bem como com a descoberta e encontro com a cultura surda, com a Libras e com os pares linguísticos.
Independente do contexto de surgimento da surdez, todas as trajetórias são marcadas por barreiras de comunicação na família. Isso fez com que esse ambiente fosse caracterizado por solidão, negação da Libras e o incentivo à oralização em língua portuguesa.  
No contexto escolar, as falas denunciam um desconforto linguístico cultural, caracterizado pela falta de intérprete, momentos de constrangimento e falta de uma metodologia que considerasse a língua de sinais. A relação com o português é conflituosa. Todas as palestrantes, em seus relatos, demostram o quanto foram cobradas para ter uma escrita que se assemelhasse à escrita do ouvinte. Mas, nunca tiveram acesso a um ensino desta língua considerando a especificidade linguístico-cultural da comunidade surda.
Renata nos emociona ao dizer que começou a ter relações interpessoais mais profundas a partir do uso da libras e do contato com seus pares. De forma semelhante, Thalia evidencia a importância da Libras na constituição do ser surdo e no estabelecimento de vínculos afetivos mais profundos.
Greice Kelly, com um tom mais político, menciona que a relação do surdo com a língua portuguesa é conflituosa, pois os surdos são classificados negativamente a partir dela, principalmente no ambiente escolar. Situação semelhante acontece com o surdo no ambiente laboral, já que todas as informações circulam prioritariamente em português. O surdo quase sempre fica alheio aos acontecimentos. Berlânia finaliza os relatos mostrando seus desafios pessoais em aprender a Libras e a motivação para adentrar nesta outra forma de significar o mundo.
Após as falas, as discussões ocorreram em torno das relações de poder entre Libras e língua portuguesa e a urgente necessidade de políticas educacionais efetivas, na atualidade, que proporcionem o acesso pleno a estas línguas e o reconhecimento e respeito da comunidade surda, principalmente no ambiente escolar, para que os surdos possam se empoderar como seres humanos e cidadãos.
Em resumo, o desconhecimento da surdez pelos profissionais da saúde, a não aceitação da surdez pela família, o desconhecimento, a não aceitação da surdez e o despreparo profissional por profissionais da educação, tudo isso associados à falta de políticas públicas voltadas para o adequado atendimento às pessoas surdas e à falta de planejamento educacional sustentado por políticas públicas e fundamentado nos direitos humanos e nos direitos civis e sociais das pessoas surdas estão fazendo com que os surdos vivam, desde que nascem, na solidão, um mal que acomete os diferentes.
Diante das trajetórias narradas pelas estudantes Renata, Berlânia, Thalia e Greice Kelly, uma pequena amostra de um complexo universo, é urgente o planejamento sério e responsável de políticas no campo da saúde e da educação, envolvendo não somente os surdos, mas, principalmente, suas famílias. É preciso esclarecer amplamente o que é a surdez e do que os surdez necessitam com urgência em suas vidas. Estamos falando de seres humanos e a vida não pode esperar.    
  








sábado, 7 de maio de 2016

RODA DE CONVERSA Trajetória das Carolinas de Jesus da Faculdade de Letras da UFG

A II Jornada de Estudos Interculturais Transdisciplinares da Linguagem, realizada pelo Obiah, tem início no dia 17 de maio com a Roda de Conversa Trajetória das Carolinas de Jesus da Faculdade de Letras da UFG, que conta a trajetória das professoras negras e mestiças da Faculdade de Letras/UFG, e segue até dezembro de 2016 com várias rodas de conversa sobre temas diversos, envolvendo debates sobre o pensamento negro brasileiro, o pensamento feminista brasileiro, as trajetórias e as histórias das pessoas que tiveram de romper as fronteiras das desigualdades e enfrentar opressões interseccionadas em suas mais diferentes manifestações.

17 de maio de 2016 
Miniauditório Egídio Turchi - Bloco Cora Coralina da Faculdade de Letras, Campus Samambaia/UFG

14 horas: Cerimônia de abertura da II Jornada de Estudos Interculturais Transdisciplinares da Linguagem:

Cerimonialista: Nathália Pereira de Oliveira Sousa.

Declamação das poesias de Carolina de Jesus: Simião Mendes Júnior

Fala de abertura: Tânia Ferreira Rezende

Quem foi Carolina Maria de Jesus? Por Flávia Cristina Passos de Almeida
Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, numa comunidade rural onde seus pais eram meeiros. Aos sete anos, sua mãe forçou-a a frequentar a escola depois que a esposa de um rico fazendeiro decidiu pagar os estudos das crianças pobres do bairro. Carolina parou de frequentar a escola no segundo ano, mas aprendeu suficientemente a ler e a escrever. Por ter sido acusada de roubo na paróquia da cidade onde morava, resolveu ir embora, a pé, para São Paulo. Mudou-se para a capital paulista em 1947, momento em que surgiam as primeiras favelas na cidade. Moradora da favela do Canindé, zona norte de São Paulo, ela trabalhava como catadora. Quando encontrava revistas e cadernos antigos, guardava-os para escrever em suas folhas. Começou a escrever sobre seu dia-a-dia, sobre como era morar na favela. Em seu diário, ela detalhava o cotidiano dos moradores da favela e, sem rodeios, descrevia os fatos políticos e sociais que via. Ela escrevia sobre como a pobreza e o desespero podem levar pessoas boas a cometerem erros graves para, assim, conseguirem comida para si e suas famílias.  Jamais cedeu às condições impostas a sua classe social. Em uma vizinhança com alto nível de analfabetismo, saber escrever era uma conquista incomum, Carolina de Jesus tinha consciência disso e sempre usou a escrita como uma arma de luta social e política, enfim, como uma defesa. Carolina escreveu poemas, romances e histórias. Um dos temas abordados em seu diário foram as pessoas do seu entorno; a autora descrevia a si mesma como alguém muito diferente dos outros favelados e afirmava “que detestava os demais negros da sua classe social”. Ao ver muitas pessoas do seu círculo social sucumbirem às drogas, álcool, prostituição, violência e roubo, Carolina lutou para se manter fiel à escrita e aos filhos, a quem sustentava vendendo lixo reciclável e com as latas de comida e roupa que encontrava no lixo.  Isto aborrecia seus vizinhos, que não eram alfabetizados, e, por isso, se sentiam desconfortáveis por vê-la sempre escrevendo, ainda mais sobre eles. Carlina foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, em abril de 1958, quando uma gangue de rua chegou e reivindicou o uso do parque recém-inaugurado na favela, perseguindo as crianças. Dantas viu Carolina de pé na beira do local gritando "Saiam ou eu vou colocar vocês no meu livro!", essa sempre foi sua arma mais poderosa! Os intrusos partiram. Dantas perguntou o que ela queria dizer com aquilo. Ela se mostrou tímida no início, mas levou-o até o seu barraco e mostrou-lhe tudo. Ele pediu uma amostra pequena e correu para o jornal. Apesar do pouco estudo, tendo cursado apenas as séries iniciais do primário, ela reunia em casa mais de 20 cadernos com testemunhos sobre o cotidiano da favela, um dos quais deu origem ao livro “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”. Sua obra traz relevantes informações para a compreensão da condição de vida nas favelas brasileiras da época, inclusive uma definição sociológica de favela, ao afirmar que “a favela é o despejo da cidade”. Após o lançamento, em 1960, seguiram-se três edições, com tradução para 13 idiomas e vendas em mais de 40 países. Seu auge e decadência como figura pública foram fugazes. Isso possivelmente ocorreu devido à sua personalidade forte, que a afastava de muita gente, além da drástica mudança no panorama político brasileiro, a partir do golpe de estado em 1964, que marginalizaria qualquer manifestação popular. Pobre e esquecida, Carolina Maria de Jesus morreu em 1977, de insuficiência respiratória, aos 62 anos. Ela é considerada uma das primeiras e mais importantes escritoras negras do Brasil.
14h30: Roda de Conversa de Abertura da II Jornada

Trajetória das Carolinas de Jesus da Faculdade de Letras da UFG  



Cristiane Batista do Nascimento, do curso de Letras: Libras e Letras: tradução e interpretação em Libras/Português.

Luciana de Oliveira Dias, do curso de Educação Intercultural do Núcleo Takinahakỹ de Formação Superior de Professores Indígenas, com atuação também no Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da UFG.

Sara Guilliana Gonzales Belaonia, do curso de Letras: Espanhol.

Tânia Ferreira Rezende - articuladora - do curso de Letras: Português, com atuação também no Programa de Pós-Graduação em Letras e Linguística da UFG, área de Estudos Linguísticos, Linha de Pesquisa Linguagem, Sociedade e Cultura. 




E foi hoje, e cá estivemos nós, as Carolinas de Jesus da Faculdade de Letras da UFG... momentos de muitas emoções... tarde histórica! Inesquecível!

Foto: Vinícius Batista

Nessa nossa caminhada terrena nos encontramos, de diferentes maneiras, por diferentes estradas e distintos motivos, em diversos momentos. O importante é que nos encontramos e nesse encontro nos doamos e nos trocamos. Nos encontramos com nossos risos, nossas dores e nossos choros... históricos, imemoriais. 


Foto: Vinícius Batista


As filhas de Jesus, de Ogun, de Exu, de Iansã, os filhos e as filhas de tantos e tantas orixás, ali silenciosos e silenciosas... silenciados e silenciadas... se deram, se entregaram, se abriram, se acolheram e se deixaram acolher pelo abraço da entrega, do dizer, do ouvir, do calar, do pensar.    



Foto: Vinícius Batista

Foto: Vinícius Batista
Nathália fez a chamada, deu o passo inicial... a voz agarrada na garganta da mulher que receia em gritar! É a fala abafada ainda a fala que não pode falar... mas já o poder mágico... Obiah!
Foto: Vinícius Batista




E Carolina Maria de Jesus foi clamada por Flávia Passos, que a representou, que a interpretou. E Carolina, poetisa, foi declamada por Simião Jr. A mulher grande agigantou na voz do artista que encantou. É Obiah!, poder mágico da linguagem, o poder de encantar. 





Cristiane Batista nos emocionou a todas/os com sua trajetória de otimismo, seu olhar brilhante diante do mundo e sua convergência diferenciada em seu ritmo demorado, melódico e poético, poesia que nos trouxe lágrimas, demoradas lágrimas, que teimavam em se resguardar. Luciana Oliveira, que nunca soube ser só, que em sua resistência à violência masculina, doméstica, desde a concepção se unira a uma irmã, como estratégia de resistência e de sobrevivência, nos chamou à luta, dentre outras, contra a violência silenciosa e bruta da anti-intelectualidade feminina. Sara Gonzales, a estrangeira, mãe solteira de uma filha e um filho, encontrou forças na Umbanda e resistência no domínio da língua portuguesa e na formação universitária nesta terra, que é sua terra de coração, nos chama atenção para a importância de se aprender língua estrangeira e transitar pelos mundos e culturas dos outros. Tânia Rezende, a do cabelo enrolado de raiz lisa, fala de seu desmerecimento pelo cabelo e do inferiorização da mulher negra pelo cabelo, um bem simbólico. Expusemos nossas dores, nossas chagas. Choramos muito. Foi um choro coletivo como nunca antes se viu nesse miniauditório Egídio Turchi, não pelos motivos agora expostos. 

Ser negra
Cristiane Batista do Nascimento

O ser negra me deu características virtuosas,
Deu-me paciência, já que eram necessárias horas e mais horas sentada enquanto trançavam meus cabelos,
Deu-me resistência a dor, pois ao pentearem meu cabelo crespo, sem uma gota de água, lágrimas de dor escorriam da face em decorrência das puxadas do pente,
Deu-me força, porque cada palavra negativa e racista só me fazia lutar para mostrar o meu potencial,
Deu-me sensibilidade para trabalhar com pessoas como eu, vítimas de rejeição,
Deu-me motivação para querer ser melhor, tendo em vista que a preferência tinha cor branca e cabelos “bons”
Ser negra me fez ser melhor, pois solidarizava-me com o sofrimento e humilhações passadas por outros, já que sofria com o mesmo mal,
Não sou vítima do sistema,
Não tenho necessariamente que ser babá, doméstica, atleta e musicista 
Quero que fique claro!
Não estou desmerecendo nenhuma profissão!
Posso ser o que eu quiser ser,
Sou negra com muito orgulho!
Não me chame de morena, por favor!
Gosto de ter mais melanina!
Não me sinto melhor e nem pior que ninguém
Quando vamos parar de nos segregar?
Por que temos que nos dividir em ricos e pobres? Negros e brancos?
Ser negra para mim é um privilégio,
Não porque eu seja melhor,
E sim porque, enquanto fui oprimida, pude me compadecer de outros humilhados pelo sistema.
Nas expressões da minha língua, há os pessimistas que preferem associar o negro ao ruim
Eu prefiro dizer:
 – Sou escura como a noite e meus olhos brilham como as estrelas que só são visíveis na escuridão.




Reinvenção 2


Tânia Rezendeem Confissões de Bertoleza 

A desculpa da invenção
foi a solidão no paraíso
daí pra escravização
nem navegar foi preciso
ligada pelo osso
presa pelo pescoço
por fim a eterna peia
peada fechada no medo

Cresce muda
segue assustada
calada na calada a força tange
tece trança amarra desata 
sobe descobre desvenda
a venda na venda à luz

Encarnada lânguida e pérfida
Pi... (π)... navegação dos amores
constância curva circunferência diâmetro
encantamento feitiço magia
sonho alegria
debut debuta debocha
sorri ama cuida cama ama
alimento... alivia alimenta
enche incha prenhe emprenhada
odores sudorese lágrimas de sal
do jorro do sêmen animal
jorra o sangue vital
seio alimentação desejo
alimenta... pari passu!
Do broto à floração 

Entranhas rasgadas 
veias abertas
estupor
entranhas dilatadas
Pari e ri e chora e acalenta
no seio farto alimenta
refrigera o ar da terra
dá vida à luz
dá à luz a vida
cordão vital 
mais um sobrevivente emocional
Fêmea na arrebentação
Cumprido o ciclo
finda a missão
ninho vazio
abandono 
ingratidão
endossa a conduta
salva o conduto
jorra o sangue mortal
pedaços de alma 
fragmento coronal
no outrora leito conjugal
Mulher na humilhação
Dor profunda
mágoa silenciosa
febre alucinação
sofre chora grita
revolta
tremula irrita
enlouquece
esquece
segue
Deusa na superação

Enquanto a vida rasgar a terra pra brotar
Enquanto a terra parir a vida pra fertilizar
A mulher´é mulher...mulher exclusivamente