domingo, 24 de novembro de 2019

PROPOSTA DE DICIONÁRIO LGBTI+ BILÍNGUE LIBRAS / PORTUGUÊS


ÍCARO AUGUSTO SANTOS 

Expressar minhas percepções de como sou em um mundo cisheteropatriarcal não é uma tarefa fácil, é um exercício mental e físico que abre feridas que esse mundo eurocêntrico impõe nas intersecções de subalternização do meu corpo. Ser gay, negro e de origem do vale do são patrício, é trazer comigo um passado machista, racista e patriarcal, que estão  imbricados na construção da minha identidade. Assumir que minha cor de pele, é o que condiciona o meu destino na sociedade, e entender que minha orientação sexual e minha classe social, podem me matar a qualquer momento, é viver com medo de ser quem eu sou. Falar sobre minha subjetividade quanto indivíduo de uma sociedade que sempre me negou esse direito e colocar no papel, as tristes dores e marcas de opressão no meu corpo doem a cada palavra. Parar para refletir quem eu sou é mexer na minha ferida, mas que mesmo sangrando sei que é necessário o curativo para sarar. Sim, escrevo chorando, pois sempre me foi dito que chorar não é coisa de homem, que ser frágil é coisa de mulher. Não, chorar é coisa de gente, coisa de gente que sofre coisa de gente que sente dor. Ande igual homem, ouvia quando criança. Fale como um homem ouvia a todo tempo. Corte este cabelo, você está parecendo “bicho do mato”, ouço até hoje. Assumir quem eu sou é ir contrário a todas essas violências que me foram acometidas durante toda minha vida, por isso, escrevo aos meus, escrevo a cada jovem gay que se sente com medo por ser quem é, escrevo com a força de meus antepassados, que morreram para que hoje eu pudesse aqui estar. Este texto surge por meio de encontros realizados por intermédio de uma Prática como Componente Curricular, na Faculdade de Letras da Universidade de Goiás, com o projeto intitulado: Expressões de percepções: como é ser o que você é no mundo cisheteropatriarcal, com orientação da professora Drª Tânia Resende, na qual pude experimentar o quão bom é ter alguém para se conversar. Sendo assim, surge a proposta de criação de um dicionário bilíngue de Libras/ Português, que abrangem sinais da comunidade LGBTI+, comunidades as quais me encontro inserido, com o intuito de levar informação à comunidade surda, logo, já trago aqui um pequeno vocabulário, tendo em vista que alguns outros sinais ainda estão sendo estudados pela comunidade surda. Para isso, é importante destacar que, os Surdos por muitos séculos tiveram seus direitos violados, uma vez que, eram impedidos de se comunicarem por meio das línguas de sinais. A grande maioria das escolas proibia o uso das línguas de sinais e forçava a oralização e leitura labial em seus alunos surdos. Quando os surdos desobedeciam estas ordens, eram castigados fisicamente e tinham suas mãos amarradas dentro de sala de aula (GESSER, 2009). Os movimentos de surdos (as), bem como os movimentos sociais da comunidade LGBTI+ no Brasil, desde muitos anos, têm buscado o debate para a formação de políticas públicas que assegurem seus direitos como cidadãos (ãs) brasileiros (as). Diante disso, no ano de 2002, foi sancionada a “Lei da Libras”, Lei 10.436, que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (Libras), como instrumento legal de comunicação da comunidade surda, propiciando assim a surdos (as), ocuparem espaços na sociedade que antes lhes eram negados. Além disso, vale ainda salientar, que os movimentos LBGTI+ no Brasil, surgem com a criação da Associação Brasileira de Lébicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), fundada em 31 de janeiro do ano de 1995, com a participação de 31 grupos, tornou-se hoje uma rede nacional de mais de 300 organizações afiliadas, sendo a maior organização de gênero da América Latina e Caribe, na qual, tem como objetivo e missão:

promover ações que garantam a cidadania e os direitos humanos de LGBTs, contribuindo para a construção de uma sociedade democrática, na qual nenhuma pessoa seja submetida a quaisquer formas de discriminação, coerção e violência, em razão de suas orientações sexuais e identidades de gênero (ABGLT, 2019).

É importante destacar, que a ABGLT, recebeu em 27 de julho de 2009, o status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social das Nações Unidas, propiciando ao movimento, reconhecimento e atuação de consultora a governos e perita técnica perante a ONU, fortalecendo ainda mais a luta da comunidade, no país que mais mata pessoas da comunidade LGBTI+ do mundo (ABGLT, 2019). Dado exposto as questões sociais, cabe ainda observarmos que toda língua necessita de um sistema de escrita, e que as línguas de sinais, assim como as línguas orais, têm suas especificidades linguísticas e a sua necessidade de uma escrita suficiente e propícia para seus registros de língua viva. Por certo, a Escrita das Línguas de Sinais (ELiS), contempla toda essa complexidade e riqueza, por ser um sistema de escrita alfabético e linear (BARROS, 2015). A saber, os caracteres que contemplam o sistema de escrita de sinais ELiS são denominados de “visografemas” e representam os elementos constituintes das línguas de sinais, sendo eles: configurações de dedos; orientações da palma; pontos de articulação; movimento e expressões não manuais, contemplando assim todos os aspectos das línguas de sinais (BARROS, 2015). Além disso, é composta por apenas 95 (noventa e cinco) visografemas, sendo eles: Configuração de dedos (CD), com 10 visografemas; orientação da palama (OP), com seis visografemas; ponto de articulação (PA), com 35 visografemas; e movimento (M) com 44 visografemas. Além dos visografemas, o sistema tem uma série de regras grafotáticas próprias, a ordem dos visografemas deve ser sempre respeitada: CD,OP,PA,M. Sendo assim, a proposta de dicionário, traz em suas entradas, os sinais escritos em ELiS, e com a utilização da tecnologia “qrcode” (que se pode ter acesso por meio de aparelhos eletrônicos como smartphones e tabletes) também ao vídeo do sinal. Para além de sinal e palavra, a proposta também traz a definição, com o intuito de além de apresentar o sinal e sua escrita, também sua significação para informação da comunidade, como pensamento futuro, tem-se o objetivo ainda de tradução de todas as definições em língua portuguesa, também para vídeo em Libras, utilizando da mesma tecnologia de qrcode. Além disso, a proposta de criação de um dicionário objetiva aqui, refletir sobre a dicionarização de termos da comunidade LGBTI+, na luta contra essa sociedade cisheteropatriarcal, pensando assim, na dicionarização como lugar de poder e legitimação de termos na norma culta da língua. Por fim, trago um protótipo do dicionário a qual desejo construir, na luta contra a LGBTFOBIA, levando conhecimento a todos e principalmente a comunidade surda, a qual é minha casa.

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LGBTI+: Movimento político e social de inclusão de pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero. L: Lésbicas; G: Gays; B: Bisexuais; T: Transexuais ou Transgêneros; I: Intersexo; + demais possibilidades de identidades de gênero e/ou orientação sexual.  

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Gênero: conjunto de valores socialmente construídos que definem as diferentes características (emocionais, afetivas, intelectuais ou físicas) e os comportamentos que cada sociedade designa para homens e mulheres. Diferente do sexo, que vem determinado como o nascimento, o gênero se aprende e se pode modificar, sendo, portanto, cultural e socialmente construído.

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Identidade de Gênero: refere-se ao gênero com o qual a pessoa se identifica (se ela se identifica como sendo um homem, uma mulher ou se ela vê a si como fora do “padrão” convencional). Esse gênero com o qual ela se identifica pode ou não concordar com o gênero que lhe foi atribuído quando de seu nascimento. Identidade de gênero e orientação sexual são dimensões diferentes e que não se confundem. Pessoas transexuais podem ser heterossexuais, lésbicas, gays ou bissexuais, tanto quanto as pessoas cisgênero.

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Orientação Sexual: Termo utilizado em referencia à orientação do desejo sexual.

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Cisgênero: pessoa cuja identidade de gênero é a mesma de seu sexo biológico.

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Travesti: identidade histórico-política, construída sócio culturalmente, da pessoa que é designada como sendo do sexo masculino, transiciona do masculino ao feminino e vive 24 horas no gênero feminino. Em reconhecimento e respeito a esta identidade deve-se sempre dizer a travesti e nunca o travesti.


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Transexual : pessoa que possui uma identidade de gênero oposta ao sexo designado (normalmente no nascimento). Geralmente usa hormônios, mas há exceções. Nem toda pessoa transexual deseja fazer cirurgia para mudança de sexo.


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Héterossexual: pessoa que sente atração física e afetiva por pessoa oposta ao sexo ou gênero.


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Homossexual: pessoa que sente atração física e afetiva por pessoa do mesmo sexo ou gênero.


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Bissexual: Pessoa que sente atração sexual por mais de um gênero. A diferença entre a bissexualidade e a homossexualidade é que também pode haver hipótese de atração entre pessoas do sexo oposto.


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Gay: palavra inglesa utilizada para designar o indivíduo (homem ou mulher) homossexual. Embora, algumas vezes, gay seja usado para designar homens e mulheres homossexuais e bissexuais, tal uso tem sido constantemente rejeitado por implicar na invisibilidade da lesbianidade e da bissexualidade. Sendo assim, a palavra gay é utilizada no senso comum, para se referir a homens que sentem atração afetivo/sexual por outros homens.


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Lésbica: mulher que experimenta amor romântico e/ou atração sexual por outras mulheres.


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Drag queen : são personagens criados por artistas performáticos que se travestem, fantasiando-se cômica ou exageradamente com o intuito geralmente profissional artístico. Chama-se drag queen a pessoa que se veste com roupas exageradas femininas estilizadas e drag king a pessoa que se veste como homem. A transformação em drag queen (ou king) geralmente envolve, por parte do artista, a criação de um personagem caracteristicamente cômico e/ou exagerado.


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Homofobia // aversão, ódio, atitudes e sentimentos negativos a pessoas homossexuais.


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Gayfobia / aversão, ódio, atitudes e sentimentos negativos a pessoas gays.


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Lesbofobia / aversão, ódio, atitudes e sentimentos negativos a pessoas lésbicas.


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Transfobia // ódio ou intolerância as pessoas transexuais e a diversidade de gênero a partir da crença de que a identidade/expressão sexual de uma pessoa deve corresponder ao seu sexo biológico.


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LGBTFOBIA: aversão, ódio, atitudes e sentimentos negativos a pessoas da comunidade LGBTI+.


REFERÊNCIAS
ABGLT. Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Disponível em: <http://www.abglt.org.br/port/index.php>. Acesso em: 10 nov. 2019.

BARROS, Mariângela Estelita. ELiS – Sistema brasileiro de escrita das línguas de sinais. Porto Alegre: Penso, 2015.

BRASIL. Lei nº 10.436 de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Brasília, 24 abr. 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2005/decreto/d5626.htm. Acesso em: 15 set. 2018.

GESSER, Audrei. LIBRAS? que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da língua de HAIRSTON, Ernest; SMITH, Linwood. Black and deaf in America: are that different. TJ Publishers, Inc., 1983.

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