sexta-feira, 26 de junho de 2015

Descolonizar a linguagem para alcançar a decolonialidade do Ser


O projeto de busca de raízes na Europa também conduz, ou pelo menos assim o defendi neste artigo, à rejeição das relações geopolíticas mais amplas que operam na própria formação da modernidade. Frente a esta amnésia sistémica, Fanon propõe uma outra geopolítica. Enquanto Heidegger tenta encontrar raízes na terra e Lévinas alicerça a filosofia em duas cidades (Atenas e Jerusalém), Fanon abre um caminho de reflexão que encara a diferença colonial como ponto de partida para o pensamento crítico. Um diagnóstico crítico da topologia europeia do Ser e da sua geopolítica do conhecimento deverá, ou pelo menos foi o que tentei deixar claro aqui, tornar visível o que permaneceu invisível ou marginal até agora e desvendar como funcionam as categorias da condenação – por exemplo, o negro, o judeu e o muçulmano. Foi com este propósito que foram formulados conceitos como modernidade/ colonialidade, colonialidade do poder, colonialidade do conhecimento e colonialidade do Ser. Estes são apenas alguns dos conceitos que teriam de fazer parte de uma gramática descolonial da análise crítica capaz de reconhecer a sua própria vulnerabilidade ao ficar aberta a posicionamentos críticos baseados nas experiências e memórias de povos que se confrontam com a modernidade/o racismo sob qualquer uma das suas formas.

MALDONADO-TORRES, Nelson. A topologia do Ser e a geopolítica do conhecimento. Modernidade, Império e Colonialidade. Em: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES, Maria Paula. Epistemologias do Sul. Coimbra-PT: Almedina, 2010, p. 399.

Frente aos desafios enfrentados atualmente pelas Humanidades, sobretudo pelos cursos de formação docente e de formação para a pesquisa na área das ciências humanas e sociais, o grupo de estudos do Obiah Grupo Transdisciplinar de Estudos Interculturais da Linguagem tem priorizado, em sua pauta de estudos, o conhecimento de autores considerados "decoloniais", com o objetivo de enxergar antigos problemas sob outras óticas (algumas já bem antigas também), a ótica da complexidade e da diversidade, sob as epistemologias que vêm do Sul (Santos; Meneses, 2010). Essa decisão, declaradamente política e ideológica, como toda seleção de caminho teórico, é, por si só, um desafio. Não é fácil nem de fácil entendimento e aceitação a proposta de caminhos teóricos construídos fora do "centro" hegemônico de produção e distribuição do conhecimento, fora dos cânones consagrados por esses "centros". situados em espaços hegemônicos quase inabaláveis, constituindo, assim, uma geopolítica racista do conhecimento, que Maldonado-Torres denomina de "racismo epistêmico". As vozes que vêm do Norte vêm sempre prenhes de autoridade histórica, esbravejando sua notoriedade legitimada por seu lugar de pertencimento, exigindo seu espaço de destaque. São muitos/as os/as defensores/as do Norte e poucos/as os/as que conhecem o Sul ou que pelo menos sabem que o Sul existe. Precisamos olhar para o Sul a partir do Sul e não pela bússola (ou sob os disfarces) do Norte. Só assim conseguiremos nos livrar de nossa pesada "culpabilidade histórica" de sermos seres incapazes, como nos veem o Norte. Essa é a nossa proposta.   

Assim pensando e em busca de caminhos para a reflexão sobre os estudos da linguagem, no campo da análise linguística, das problematizações sociolinguísticas e dos estudos literários, na teoria e na crítica, propusemos realizar estudos, reflexões e expor ao diálogo algumas considerações sobre a decolonização do olhar, do conhecimento, do ser e da linguagem. Nossas reflexões estão sendo apresentadas na Jornada de Estudos Interculturais Transdisciplinares da Linguagem, em forma de rodas de conversa, orientadas pelas teorias fundamentadas pelas epistemologias do Sul (Santos; Meneses, 2010), com base, especificamente, em Frantz Fanon e Paulo Freire, complementados, sempre que necessário, por outros autores, incluindo alguns defensores do "centro". Em dezembro, teremos o Seminário de encerramento da Jornada 2015 do Obiah. Propomos, portanto, outros centros geopolíticos de fala, de construção e de distribuição de conhecimentos; outros espaços epistêmicos e outras orientações teóricas, todos legitimados e autorizados. Durante o mês de junho foram realizadas três rodas de conversa, as quais passo a descrever.  

Subjetividade, Atitude Sociolinguística e Exclusão Social 
O "homem cordial", de Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, interpretado à luz do Paradigma Decolonial, ajuda a entender o faz-de-conta-que do/a brasileiro/a nos dias atuais.

Cartaz: Tânia Rezende
A Professora Candice Marques de Lima - Psicóloga, Professora de Psicologia da Educação na Faculdade de Letras/UFG - abriu o diálogo retomando o conceito de cordialidade e como ele ainda é atual nas tentativas de entendimento do comportamento da sociedade brasileira e refletiu sobre os impactos da cordialidade no mascaramento de algumas políticas educacionais, como, por exemplo, na efetivação da educação inclusiva. Segundo a Professora, os/as profissionais da educação, aparentemente, se declaram todos/as muito favoráveis e engajados/as nas propostas de educação inclusiva. Apesar disso, ao se observar as práticas desses/as docentes, de forma sistemática, o que se percebe é uma indisposição e até mesmo falta de informação e de entendimento do que seja educação inclusiva. Assim, o que parece está acontecendo de maneira satisfatória e positiva, nada mais é do que a expressão da cordialidade brasileira pelos/as docentes, que se preocupam em dizer o que acham que seu/sua interlocutor/a quer ouvir e, como são bastante habilidosos, conseguem alcançar seu objetivo. Essa atitude dos/as profissionais da educação vem ao encontro dos projetos político-educacionais do Estado, que visam atender às disposições legais e os desejos da sociedade sem, contudo, reestruturar a ordem instituída e vigente no país. Assim, o comportamento dos/as docentes fundamentam os discursos oficiais e estes reforçam os comportamentos dos/as docentes, corroborando a constatação de Boaventura de Sousa Santos de que "Lutar contra uma dominação cada vez mais polifacetada significa perversamente lutar contra a indefinição entre quem domina e quem é dominado, e, muitas vezes, lutar contra nós próprios".

Fotos: Gyovanna Milhomem Silva
Tânia Rezende - Linguista, Professora do Departamento de Linguística e Língua Portuguesa da Faculdade de Letras/UFG - correlacionou as noções de "atitude sociolinguística", conforme vem sendo discutida no Obiah, a partir da Sociolinguística, e "auto-desvalia social", de Paulo Freire, com base na dialética marxista, para problematizar a "linguofobia" do/a brasileiro/a, expressa em enunciados auto-depreciativos do tipo "eu não gosto de português", "a língua portuguesa é a mais difícil do mundo", "eu sou muito ruim em português". Essas avaliações refletem uma atitude sociolinguística ruim do/a brasileiro/a com relação ao idioma oficial (e língua hegemônica) do Brasil, que é a língua materna de uma grande parte dos/as brasileiros/as, segunda ou terceira língua dos povos indígenas (ainda há muitos povos indígenas brasileiros que não falam português) e de agrupamentos de imigrantes estrangeiros/as, além de outros. Tais atitudes sociolinguísticas, defende a Professora, decorre da profunda auto-desvalia do/a brasileiro/a, derivada da desvalia social do povo brasileiro, historicamente construída e atualmente ainda reafirmada pela educação escolar pautada em conhecimentos e modelos de ensino que vêm do "centro" e, principalmente, ancorada em um modelo ideal e abstrato de padrão culto de uso do português, um padrão impossível de ser apropriado por qualquer categoria de brasileiro/a. A disciplina escolar Língua Portuguesa, historicamente usada como instrumento de dominação, ainda é a principal estratégia de exclusão social, por meio do bloqueio do acesso da grande maioria dos/as brasileiros/as aos bens e serviços públicos, de direito de todo cidadão e cidadã nascido/a no Brasil ou naturalizado/a brasileiro/as. 

Pedro Augusto Lino Silva Costa - aluno da licenciatura em Português da Faculdade de Letras/UFG - apresentou os resultados de seus estudos, fomentados pelo programa Prolicen da Capes aos/às estudantes de licenciatura. Em suas reflexões, fundamentadas em Hosbsbawm e nas observações realizadas na escola de um quilombo urbano de Goiás, o estudante defende que há um perfil "inventado" do aluno/a da escola pública, do qual parte o/a professor/a em suas aulas, da mesma forma que há um perfil inventado do/a professor/a da escola pública, do qual parte o/a estudante em seus estudos. O resultado é um desencontro entre ensino e expectativa de aprendizagem, que reforça, cada vez mais, a desvalia social e a auto-desvalia dos/as estudantes e dos/as professores, gerando nos/as estudantes uma profunda auto-desvalia sociolinguística, que impactam negativamente os processos de ensino e de aprendizagem da Língua Portuguesa (as observações se restringiram às aulas dessa disciplina), por acarretar a linguofobia e até a escolofobia. dos/as estudantes. Esse quadro reforça que o ensino, mesmo em um quilombo, que tem direito legalmente amparado a um ensino diferenciado, ainda segue os modelos herdados das metrópoles durante a colonização linguística do Brasil, por meio da escolarização do povo marginalizado. Esse tipo de escolarização está, declaradamente, a serviço dos projetos autoritários de Estado.

Tradição, Memória e Subjetividade

Cartaz: Tânia Rezende

A invenção da tradição, conforme Hobsbawm e seus seguidores, interpretada à luz do Paradigma Decolonial, mostra como a invenção do "outro" pelo europeu colonizador construiu a memória da modernidade no novo mundo apagando a humanidade do novo mundo. A reação brasileira a essa imposição se deu e se dá pela valorização da "mistura" que nos identifica como povo.


Fotos: Gyovanna Milhomem Silva
Ana Elizabete Barreira Machado, linguista, articuladora da Roda de Conversa, abriu a sessão, discutindo o tema com base na educação escolar brasileira, partindo do processo de elaboração do currículo da Escola Estadual Indígena Cacique José Borges, situada na Terra Indígena Carretão, em torno do qual emergiu a tensão entre a realidade sociolinguística do Carretão e a identidade étnico-cultural dos Tapuia. A problemática pode ser sintetizada no questionamento da sociedade brasileira não indígena acerca da identidade indígena dos Tapuia, baseada unicamente na língua falada na Terra Indígena Carretão, motivada pelas fundiárias que opõem os Tapuia aos fazendeiros locais há mais de um século: se não falam uma língua indígena, eles falam o português sertanejo do interior de Goiás, então, não são índios e, por isso, não têm direito às terras do antigo aldeamento. Diante disso, surge, em um primeiro momento, a proposta de a escola ensinar uma língua indígena, o Xavante, sua língua ancestral, e promover gradualmente um bilinguismo sócio-identitário. Em um segundo momento, dadas as dificuldades de se promover o bilinguismo sócio-identitário, apoiados/as pela formação no curso de Educação Intercultural da UFG, os/as Tapuia questionam o fato de a língua ser o único fator de identificação de um povo e defendem que não é povo que não é indígena porque a língua não é indígena, mas a língua é que é indígena porque o povo é indígena e, assim, afirmam o Português Tapuia como língua indígena e como sua língua materna e identitária. Assim, o Português Tapuia passa a ser a língua de ensino na escola do Carretão e, em torno dessa postura política e da política de valorização de sua identidade e positivização de sua atitude sociolinguística, os Tapuia elaboram um novo currículo para a escola (Projeto Político Pedagógico), a partir do qual nasce esse "novo homem" (Fanon), o povo Tapuia do Carretão.

http://www.pelasruasecabides.com.br/moda/a-tropicalia-e-a-moda/
Victor Creti Bruzadelli, historiador, Professor na rede privada de educação básica de Goiânia, com base em sua pesquisa de mestrado (em andamento) na Faculdade de História da UFG, discute o tema a partir da análise do movimento brasileiro denominado de "Tropicália", surgido como a invenção de uma nova tradição musical no interior da MPB. Caracterizam a Tropicália, segundo o professor, a mistura de ritmos e estilos musicais, a temática e, principalmente, a valorização da mistura entre elementos imisturáveis ou misturas impensáveis, cujo resultado é, antes de tudo, o riso. Com fundamento teórico tributário dos escritos de Freud, sua análise centra-se na paródia expressa nas músicas tropicalistas. Enfim, o movimento musical Tropicália é também um movimento político, em reação à ditadura militar no Brasil. Esse movimento se vale de uma das estratégias mais caras ao ser humano, o humor, o riso, para ridicularizar a ordem instituída e oficializada como tradição nacional para propor uma nova tradição. Aguardemos pela dissertação do Prof. Victor C. Bruzadelli.


http://www.centenariomazzaropi.org.br/o-grande-amigo-jeca-tatu/
Rodolpho Gomes Barreto de Carvalho Oliveira, linguista, Professor na rede privada de educação básica de Goiânia, discute o tema a partir do estudo do aumento na frequência de uso da variante retroflexa do /r/ em coda, na fala goianiense. O português brasileiro é produto de uma simbiose linguística histórica e uma de suas particularidades é o r retroflexo (denominado também de r-caipira ou r do caipira). Esse som é uma inovação do português brasileiro, não foi ainda documentado em nenhuma das demais línguas românicas e além de distinguir o português brasileiro da língua portuguesa falada na Europa, Áfricas e Ásia, distingue a fala do "território histórico paulista" das demais práticas sociolinguísticas brasileiras. A expectativa de estudiosos como Amadeu Amaral (O dialeto caipira, de 1920) era que o dialeto caipira (e o r-caipira), dado seu estigma social, desparecesse conforme a população brasileira em geral fosse sendo escolarizada. O que os estudos de Rodolpho Oliveira apontam é exatamente o contrário, embora o mapa do r-retroflexo no Brasil confirme a previsão de Amaral. Segundo o pesquisador o aumento da frequência de uso do r-retroflexo em Goiânia decorre da relocalização da cultura caipira em Goiânia e em Goiás e da valorização da identidade goiana resultante das misturas sócio-históricas  formadoras do povo brasileiro. Essa mudança está relacionada a expressão da música sertaneja de Goiás no Brasil, além do fato de Goiás ser atualmente um centro de possibilidades econômicas para os/as brasileiros/as de todas as regiões do país. 


Fanon e Freire: diálogos pela decolonização da linguagem

Cartaz: Tânia Rezende
As teorias marxistas - materialismo histórico, materialismo dialético, dialética marxista etc. - sob diferentes feições e formas de expressões, desde as concepções mais mecanicistas até as mais dialéticas, subsidiaram gerações de estudos humanistas fundamentais para a emergência de novas abordagens à linguagem, sobretudo no campo das artes e da estética, e de novos projetos para a educação. Citamos como os mais expressivos autores nesses campos, por sua busca das artes pela linguagem e sua preocupação com o poder da linguagem, Bakhtin, Vygtsky, Fanon e Paulo Freire. Decorrem, principalmente, das discussões/denúncias de Fanon e Freire os fundamentos do que está sendo denominado atualmente de Paradigma Decolonial ou Paradigma da Decolonialidade. Este Paradigma parte do pressuposto que, embora a colonização política e administrativa do Novo Mundo tenha sido finalizada, suas construções ideológicas ainda reverberam sob a forma de colonialidades - colonialidade do saber ou do conhecimento, resultado do "epistemicídio colonial" e do ainda vigente e atuante "racismo epistêmico"; colonialidade da linguagem - gestão sociolinguística legitimada por políticas linguísticas e planejamentos educacionais etnocêntricos e excludentes; colonialidade do Ser. Para dialogar sobre essas questões, foi proposta a Roda de Conversas sobre a decolonização da linguagem na Literatura (Tarsilla Couto de Brito), por meio do fazer literário, do ensino de Literatura (Simião Mendes Júnior) e do ensino de Língua Portuguesa e de Literatura por meio dos gêneros textuais/discursivos (Wilton Divino da Silva Júnior).   
Foto: Ana Elizabete Barreira Machado 
Tarsilla Couto de Brito, Professora do Departamento de Estudos Literários da Faculdade de Letras/UFG, abriu o diálogo apresentando as ideias de Fanon e mostrando como essas ideias "lançam luzes" para se pensar um novo projeto de estudo da Literatura,  que não seja mera repetição, mas produção de conhecimento, sob novas bases. 

A Professora declara que "a leitura de Os condenados da Terra nos mostra que há muito tempo já não basta falar em descolonização (processo de emancipação política que o Brasil viveu no século XIX e a maioria das colônias africanas só conseguiu realizar em meados do século XX). Lendo passagens como esta: 
"O intelectual colonizado investiu sua agressividade em sua vontade mal dissimulada de se assimilar ao mundo colonial. Pôs sua agressividade a serviço de seus interesses próprios, de seus interesses individuais. Assim nasce facilmente uma espécie de classe de escravos individualmente libertos, de escravos forros. O que o intelectual reclama é a possibilidade de multiplicar os libertos, a possibilidade de organizar uma autêntica classe de libertos. As massas, ao contrário, não pretendem ver aumentar as oportunidades de sucesso dos indivíduos. O que exigem não é o estatuto do colono, mas o lugar do colono. Os colonizados, em sua imensa maioria, querem a fazenda do colono."
Passagem que não deixa espaço para interpretação, só há uma coisa a entender: querer a fazenda do colono é querer seu lugar de produção. Lendo passagens como essa começamos a compreender o sentido diferencial do termo decolonialidade: emancipação do pensamento, em nosso campo de conhecimento, da linguagem, da literatura, do ensino. É preciso assumir o lugar de produção do conhecimento que outrora foi/continua sendo do colonizador.
Com base nessa premissa, retomo alguns dos conceitos mais relevantes de Franz Fanon para pensar as possibilidades de criação de espaços de autonomia para produção do conhecimento hoje na Universidade Federal de Goiás. O próprio modo de condução da reflexão elaborado por Fanon em Os condenados da Terra pode servir de exemplo para tal empreitada. Ele era marxista mas percebeu a insuficiência das dicotomias marxistas para explicar a situação colonial; era existencialista, mas compreendeu o elitismo inerente à concepção de ser humano da teoria sartreana; na contramão do pensamento humanista que rejeitava todo tipo de nacionalismo depois da experiência do nazismo, Fanon demonstrou a necessidade de um projeto de nacionalidade para os povos que lutavam por liberdade; como médico psiquiatra, contribuiu imensamente para a compreensão da violência no contexto colonial - não se tratava de uma expressão da luta de classes, era muito mais a manifestação perversa da dominação colonial no corpo e na mente do homem colonizado, manifestação que poderia até mesmo se dirigir a um igual, a um irmão. Por fim, a proposta de superação da situação colonial idealizada por Fanon constitui uma apropriação do conceito de utopia renascentista, ressignificada por uma concepção coletiva e combativa de ser humano: “A consciência nacional deveria ser a cristalização das aspirações mais íntimas do conjunto do povo, produto mais palpável da mobilização popular”. A utopia é uma mensagem da garrafa, destinada a outros homens, de outros tempos e de outros lugares. Nesse sentido, a citação, enunciada no condicional, é instigante e convidativa". 

Simião Mendes Júnior
                                Aluno da licenciatura em Português da Faculdade de Letras/UFG, com base em suas experiências de estágio na rede pública de educação de Goiânia, provocou a reflexão, a partir do ponto de vista do estudante/professor em formação, acerca do como são as aulas de Literatura na educação básica e de como essas aulas desestimulam os alunos para a leitura, principalmente, para a leitura literária. 

"Antônio Cândido em “O direito a Literatura” de 1988, nos mostra o quanto ela é ampla, sendo toda e qualquer criação com toque poético, ficcional ou dramático e estando em todo e qualquer nível de uma sociedade. Além de ser uma manifestação universal de todos os homens em todos os tempos. Para ele, não há povo nem ser humano que possa viver sem alguma espécie de fabulação. Afirma que, assim como o homem não pode viver sem sonhar, também não pode viver sem a literatura, pois mais que uma necessidade, ela se constitui um direito. Cândido chama atenção também para o caráter da literatura de poder servir como instrumento consciente de desmascaramento de restrições dos direitos, ou da negação deles, como no caso da submissão ou servidão, tendo ela muito haver com a luta pelos direitos humanos. É possível lincar essa concepção de Cândido sobre o direito a literatura com as de Freire em sua “Pedagogia do Oprimido”, de 1968, onde este propõe formas de desconstruir o mito da estrutura opressora, da colonização cognitiva e da invasão cultural, que é a penetração que fazem os invasores no contexto cultural dos invadidos, impondo a estes, sua visão de mundo enquanto lhes freiam a criatividade. Na obra, há um diálogo com o pensamento de Frantz Fanon, quando Freire utiliza em algumas passagens a expressão “condenados da terra”, título de 1961, para se referir aos oprimidos. A pedagogia do oprimido e a perspectiva decolonial tem um valor pedagógico na medida em que dialogam quanto a ideia de “colonização cognitiva” e no argumento de que a dominação se fundamente em um mito. Para reverter essa colonização cognitiva, ou colonização do ser, tanto na obra de Freire quanto na de Fanon, a estratégia pensada é a de deslocamento do lugar de fala (em Freire, na concepção de educação libertadora). Freire faz uso da analogia de Fanon do senhor e do escravo para explicar a relação entre opressor e oprimido. Para ele, o oprimido carrega em si características do opressor, adquiridas e internalizadas durante o processo de educação nos moldes da opressão (educação bancária). Essa característica do oprimido é a mesma que o leva a crer que o ideal do homem é um dia chegar a ser como o patrão, a autoridade, o opressor, o que é uma influência da ideia de Fanon em “os condenados da terra”  onde o colonizado tem como ideal se tornar colonizador. O processo que permite esta “colonização cognitiva” ou “colonização do ser” levando o individuo a pensar e ver o mundo a partir de categorias que o colocam na posição de oprimido é um tema ao qual muito se dedica a literatura pós-colonial, mas veremos como isso ocorre na educação. Essa colonização cognitiva é o mito responsável por fazer com que o oprimido projete em si a visão negativa que o opressor tem deles, de serem ignorantes e incapazes, algo que ocorre com os alunos no contato com a literatura quando este contato se dá pelo viés do que Freire chama de educação bancária. Os mitos são passados às classes oprimidas por meio desta educação bancária onde não há nenhum tipo de processo dialógico entre professor e aluno, e só o primeiro é detentor da fala. Neste modelo, o conteúdo e depositado nos alunos como verdades absolutas pela figura autoritária e opressora do professor.  Seria essa a invasão cultural, de Freire, que se assemelha a ideia de colonização do ser, na literatura decolonial. Para contrapor o modelo de educação bancária, Freire propõe a educação libertadora que pressupõe o diálogo como fundamental no processo pedagógico e é a forma de superar essa visão imutável da realidade e do modelos cânones de educação. Ela tem papel fundamental no processo de desconstrução da mitologia opressora, quando problematiza aspectos da realidade dos oprimidos e transforma a imagem do professor de autoritária para a de um mediador entre o conteúdo e o aluno. Para Freire uma das formas pelas quais o professor poderia ajudar no sentido de superação da “mitologia opressora”, da “colonização do ser”, é expulsar de dentro do oprimido a vontade de se tornar opressor, demonstrando que essa vontade é uma problemática. Já para os pensadores decoloniais, como Fanon, uma saída para o problema da “colonização do ser” é a inserção de um novo lugar de fala, de um novo lugar de enunciação, que na educação básica seria algo que se assemelha ao conceito Vygotskyano de zona de desenvolvimento proximal, tirando o aluno de sua condição passiva para se tornar questionador, dando a ele a oportunidade da palavra a partir daquilo que potencialmente sabe. Para Cosson, é preciso proporcionar aos alunos da educação básica uma experiencia real de leitura a ser compartilhada com as pessoas de seu convívio, buscando a formação de uma comunidade de leitores. Essa experiencia tem que tomar como ponto de partida, os estudos literários fazendo intertextualidade com outros conhecimentos, guiando o aluno para a compreensão critica do texto literário,  sem que esqueça da necessidade da leitura efetiva das obras, que não podem se restringir apenas aos clássicos. É preciso que haja diversidade de manifestações literárias. Por fim, explorar também a criatividade do aluno para que mais que um leitor, este se torne também produtor de textos. Segundo Zilberman, é necessário também uma diversificação de abordagens além de uma seleção adequada de obras para que ocorra a desmistificação da literatura, como algo chato, uma perda de tempo, restrita a intelectuais (afinal como nos lembra Cândido, todos precisamos dela). Para ela é um erro que as obras a serem trabalhadas não sejam pensadas em diálogo com as práticas de leitura do aluno fora da sala de aula (isso quando ela existe) ou  com outras praticas culturais em que este aluno esta envolvido em seu dia-a-dia. A carência de contato dos alunos com a literatura, mesmo a simples e elementar e a falta de incentivo de práticas de leitura literária desde a educação infantil vem prejudicando o processo de aprendizagem e o gosto pela literatura nos anos finais do ensino fundamental e durante o período do ensino médio. Muitos alunos vão se deparar efetivamente com obras literarias quando já estão prestes de fazer o ENEM, com uma leitura já direcionada a este exame. No ensino médio o adolescente já deveria acessar obras nacionais e internacionais de grande valor estético, os clássicos, somados a literatura que corre à margem do cânone, para assim, engrandecer o seu repertorio e seu nível de exigência como leitor e, se possível, como produtor de textos. No entanto, com a carência da leitura de obras literárias na educação infantil e no ensino fundamental o que mais se vê são alunos sem o mínimo de interesse pelas obras literárias. Soma-se a isso, o conteúdo engessado dos estudos das escolas literárias que os livros didáticos apresentam, o pouco tempo dedicado à leitura de obras literárias e a divisão da disciplina de língua portuguesa em Gramatica, redação e literatura, tendo a última uma pequena carga horaria destinada. Além da já citada pressão da escola, da família e do próprio aluno para o exame nacional de ensino médio. Além do hábito horrível de substituir as obras literárias por resumos mal elaborados, que as vezes, é incentivado pelo próprio professor. Tudo isso constitui mitos que precisam ser quebrados para que a linguagem no ensino da literatura seja decolonizada. Para tal, é necessário, além do que já foi citado quanto a exclusão do modelo de educação bancária, de invasão cultural e colonização cognitiva, valorizar o texto literário em sua pluralidade (as várias formas que Cândido nos chama atenção) além da integração de saberes no incentivo da escola para a leitura de obras clássicas em diálogo com produções contemporâneas. É necessário que o aluno compreenda a literatura como fenômeno cultural, fantástico, histórico, politico e social, ou seja, que ele seja capaz de compreender sua pluralidade e sua totalidade". 

Wilton Divino da Silva Júnior
Professor do Departamento de Linguística da Faculdade de Letras/UFG, com formação em Análise do Discurso e experiência em supervisão de estágio de Português, problematiza o ensino de Língua Portuguesa por meio de gêneros textuais, destacando alguns equívocos, tanto das propostas orientadoras quanto das práticas de ensino orientadas. 

"Para pensar o trabalho com os gêneros discursivos na educação básica, busco, primeiramente, uma distinção entre as noções de transgressão e de subversão. Aparentemente, noções muito semelhantes, por isso a necessidade de distingui-las. Entendo o verbete “subverter” conforme o dicionário apresenta: “revolver de baixo para cima; destruir; modificar algo estabelecido realizando transformações profundas”. Portanto, subverter implica um processo de alteração efetiva de modelos estabelecidos. Já o verbete “transgredir”, procuro trata-lo a partir de alguns apontamentos de Michel Foucault (“Prefácio à transgressão, 1963), isto é, não considero a transgressão exclusivamente como rompimento e violação da norma, já que a retomada dos enunciados relativos ao que é vigente é fundamental para a sustentação e afirmação daquilo que a transgressão visa a instaurar; a transgressão não instaura “o original”, “o nunca antes visto”, diferentemente, possibilita a produção do novo, nos moldes foucaultianos, que se constitui não pela originalidade de seu conteúdo, mas no “acontecimento de sua volta”. A transgressão não instaura novos modelos, ela provoca fissuras numa dada modelagem. A transgressão como mecanismo limítrofe nas relações de poder não instaura, mas simula uma nova ordem; ela não apaga, mas perturba, interfere na norma vigente. A transgressão é um investimento no horizonte de sentidos de uma mesma ordem discursiva. Partindo dessa afirmação, espero discutir a própria condição de existência de práticas transgressoras na contemporaneidade, tendo em vista a dissolução da ideia moderna de Novo como contraposição ao Clássico (arcaico e antigo), e a subsequente normalização do fenômeno transgressivo dado os modos de organização social, cultural, política e econômica atuais. Entendo que a transgressão se produz no âmbito discursivo, pois, ela se efetiva como acontecimento conjugando linguagem, história, sociedade e sujeito num constante movimento de mudança que sempre surge na relação com outros discursos. Pensando nisso, busco como objeto para esta reflexão, as práticas pedagógicas de ensino de português na educação básica que consideram os gêneros discursivos como foco. Desde a parametrização do ensino de português pelos PCN em 1996 e sua reformulação até as OCN em 2006, a noção de gêneros discursivos adentrou com força os espaços escolares (salas de aula, cursos para formação docente, avaliações de pequeno e grande porte, livros didáticos e etc.), tornando-se uma espécie de recurso de salvação para o ensino de português, até então pautado nos modelos de prescrição linguística evidenciados no trabalho das aulas de gramática, ou, na equivocada ideia de replicar conceitos de Linguística (esquema comunicacional jakobsoniano / variação e mudança linguística) em livros didáticos, ou ainda, na incompreensão das teorias do texto ao focalizar neste unidade teórica, subterfúgio para o ensino das classes morfossintáticas e tipologias oracionais. Não entrarei aqui nas discussões sobre o distanciamento entre teoria e prática, assumido por muitos, para a resolução imediatista de uma questão complexa. Ora, é claro que se trata aqui de uma questão teórico-prática, entretanto de ordem epistemológica, política, histórica e cultural e não da ordem do burocrático-tecnicista (esclareço: esta última ordem reforça a noção de teoria versus prática manifesta em falas como esta: “no papel tudo fica muito bonito, mas na prática tudo funciona diferente”. Discursos como este não são capazes sequer de descrever a questão ora problematizada, muito menos de dar-lhe solução). Portanto, neste momento, desejo problematizar a entrada dos gêneros discursivos nos espaços escolares como NOVA MODELAGEM mas que foi aplicada para manutenção dos princípios colonizadores que sustentam as distinções sociais. Os gêneros discursivos assumem a figura do herói de uma revolução ainda por se fazer. Parece-me que há um desejo em se conferir à teoria dos gêneros um caráter subversivo, remodelador, que possa apagar num só golpe o lastro deixado pelo ensino tradicional do português. Os gêneros discursivos adentram os espaços escolares assentados na mesma modelagem prescritiva para o ensino de língua, isto é, gramaticalizados. Esse procedimento visa a categorização, caracterização e replicação dos aspectos linguístico-discursivos constituintes dos gêneros a despeito de seu uso concreto no mundo real; e isso não significa que me coloco contra uma necessária pedagogização dos gêneros, posto que falo da instituição escolar, entretanto, acredito que tal prática didática deva considerar efetivamente as vivências e os saberes dos envolvidos no processo de educação. Cito as Orientações Curriculares Nacionais para o ensino médio (BRASIL, 2006, p.34) a fim de corroborar a necessidade de uma prática SOCIAL da linguagem que se efetue de forma contextualizada:
Independentemente, porém, da natureza da modalidade e da prática social de linguagem em foco, parte-se da compreensão de que o conhecimento do sujeito para nela atuar é uma produção humana, histórica, contextualizada, e que sua apropriação se dá exatamente na prática social. Em outras palavras, reitera-se que, como os conhecimentos são resultado de processos sociocognitivos de produção de sentido, sua construção dá-se sempre de forma contextualizada, em atividades nas quais os sujeitos se engajam e nas quais a linguagem está sempre implicada.
Entretanto, o que parece fundamentar as bases para uma remodelagem das práticas de ensino de português, se inviabiliza pela necessidade em manter as estruturas fundamentais da modelagem tradicional como os “conteúdos mínimos” que devem ser pensados pela “escola, junto com os professores”. Novamente, cito as OCN:
os conteúdos mínimos devem ser pensados em termos do desenvolvimento da capacidade de ação de linguagem dos sujeitos. [...]. Saliente-se, assim, que cabe à escola, junto com os professores, precisar os conteúdos a serem transformados em objetos de ensino e de aprendizagem bem como os procedimentos por meio dos quais se efetivará sua operacionalização. (BRASIL, 2006, p.35)
Observo dois pontos de discussão. O primeiro deles refere-se a caracterização de “mínimo” ou “básico” aplicada ao termo conteúdo. O segundo, diz respeito a estratégia que permite escolher e definir este “conteúdo mínimo”, a cargo da escola e dos professores. Ora, para se definir conteúdo mínimo parte-se necessariamente de uma imagem aprioristicamente criada de aluno, portanto, pré-conceitual. Disso, me questiono, quais características serão privilegiadas e quais serão excluídas na elaboração dessa imagem a fim de que a partir dela se possa afirmar o que é mínimo como conteúdo de português. Posso pensar que seja universalmente necessário que se ensine a ler, pois vivemos numa sociedade letrada, cujas práticas e comportamentos são regidos também pela escrita (e aqui ainda apago propositalmente sociedades ágrafas, por exemplo, para que se possa ver o absurdo da proposição). Entretanto, a leitura é uma prática indiscutivelmente vinculada aos processos históricos e culturais de um dado grupo, portanto não posso trata-la como um universal, preciso questionar o que é ler para este grupo em questão, quais materiais de leitura utilizar, quais as necessidades do ler para este grupo e assim por diante. Enquanto universalizarmos os conteúdos, encontrando sempre os elementos “mínimos indiscutivelmente necessários” para o ensino de português sustentaremos e corroboraremos com esta modelagem colonizadora e preconceituosa que “arrota” um princípio de heterogeneidade, porém está muito distante da compreensão da diferença. O segundo ponto, acerca da delegação da tarefa de escolha dos conteúdos mínimos à escola e aos professores, invisibiliza a figura do aluno real; ele não tem voz, ele não tem autonomia, ele não é. E para isso é preciso dizer por ele, sustenta-lo na dependência cognitivo-intelectual de que um outro sabe por ele e melhor que ele (aos moldes do colonizador) e o pior, é discursar sobre a necessidade da construção de um “cidadão autônomo”. Vejam, tanto escola, professor e aluno estão submetidos por tais práticas a uma mentalidade ainda colonial de exercício contínuo para a manutenção de um modelo, não funcional para as necessidades contemporâneas, que, no entanto, replica-se ad infinitum, pois, (disso o tom provocativo de minha fala) não paramos para discutir de fato os aspectos teóricos (portanto também políticos, sociais, históricos, culturais e econômicos) que fundamentam as estratégias de parametrização e orientação do ensino de português.             Definir a priori os gêneros discursivos a serem trabalhados nas diversas séries da educação básica parece-me desconsiderar uma prática social da linguagem. Bakhtin, no clássico texto “Os gêneros do discurso”, confirma essa relação constitutiva entre os campos da atividade humana e o uso da linguagem. Cito:
Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. Compreende-se perfeitamente que o caráter e as formas desse uso sejam tão multiformes quanto os campos da atividade humana [...] (p.261). A riqueza e a diversidade dos gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo. (p.262).
Dos modos de agir do humano no mundo resultam os gêneros discursivos, portanto de uma linguagem concreta que demanda interlocução, espaços de circulação, necessidades reais de produção e recepção dos sentidos. Entretanto a inserção dos gêneros como objeto do ensino de português apagou ou maquiou tais aspectos sob a égide de uma prática didatizante tradicional que escolheu, delimitou, categorizou e replicou os gêneros numa modelagem de ensino que descontextualizou a língua, tornando-a novamente conteúdo de ensino para ser avaliado pelo professor. Ainda assim, apesar de tudo o que expus anteriormente, a entrada dos gêneros discursivos no ensino de português configura-se como prática transgressora, mas não subversiva, pois ainda que não exista uma reconfiguração do modelo fundamental de ensino de português, há necessariamente um novo elemento, uma fissura no modelo, provocada por um novo acontecimento, uma nova possibilidade de conjugação entre teorias da linguagem e práticas de ensino de português, vislumbrando a possibilidade de uma ação pedagógica que desenvolva habilidades de leitura e de escrita, de fala e de escuta de textos sob a perspectiva de uma língua em uso. Como prática transgressora, a inserção desse “novo” saber no espaço escolar exerce necessariamente um poder que disciplina e controla. Há uma gestão escolar de ordem administrativa (apesar de insistentemente nomear-se como pedagógica) que produz os “currículos mínimos de ensino” e “tutora” sua aplicação. Essa disciplinarização dos saberes, bem como dos professores configura-se como exercício de poder para manutenção da colonialidade, pois os docentes imbuem-se de uma mentalidade escravocrata e tornam-se subservientes, em sua maioria, às coações daqueles que sustentam a modelagem tradicional, efetivando, portanto, o controle necessário à manutenção da ordem: “é importante que se ensine isso, nos disseram aqueles que expropriaram os professores das teorias estudadas na universidade. Cumpra-se, nos disseram os tecno-burocratas. E todos eles nos ameaçaram com punições. Resultado, produzimos em nós mesmos uma docilidade tal que nos impede as estratégias de resistência”. Finalizo minha provocação citando Franzt Fanon, em Peles negras, Máscaras brancas de 1952: “o domínio da linguagem proporciona notável poder”. Portanto, é preciso considerar que nos encontramos enredados numa condição quase que inescapável, ou seja, a inserção dos saberes linguísticos na escola evidenciam o exercício inequívoco de um poder disciplinador e controlador sobre os agentes educativos, que ora se submetem, ora resistem a esse poder. Entretanto, é fundamental compreender as estruturas de base que configuram determinados padrões reguladores a fim de organizar estratégias efetivas de resistência, a par dos processos de vitimização, para, de fato, poder subverter os moldes tradicionais que sustentam ainda hoje práticas colonizadoras.
Foto: Ana Elizabete Barreira Machado 

Alguns pontos destacados para provocar um diálogo intercultural ao modo do Sul global e à moda bastarda do Brasil Central ou Goiás

O conjunto das rodas de conversas, com toda a riqueza que a diversidade de pensamento, ideias e visão de mundo pode proporcionar, é que no campo de estudo da linguagem, em que a linguagem não é objeto de estudo, ela é também sujeito, tem autoria quase própria, se consideramos que a linguagem constitui o sujeito sociolinguístico. Por isso, os estudos no macro-campo das humanidades, por meio da linguagem: 
1) está em processo de exploração e de explosão de outras formas de ver o mundo, de construir e de conceber a sociedade, para além do pensamento abissal eurocêntrico, ainda que com feições latino-americanas; está em franca emancipação o pensamento pós-abissal;
2) a mistura é a base fundadora de todas as coisas; assumir a mistura em sua manifestação simbiótica como epistemologia, a partir dos desejos e motivações do Sul global, parece ser o objetivo do fazer intelectual, acadêmico, científico, artístico, pedagógico e sociocultural; somos todos/as muito misturados/as e tudo nosso é misturado e isso é bom;
3) assumir a mistura e positivar as simbioses do Sul global parece ser inevitável e questão de tempo, mas, nem por isso, haverá menos ou mais fracas resistências;
4) as novas configurações sociais parecem potencializar a superação da "síndrome de vira-lata" e da "cordialidade" do/a brasileiro/a, além de democratizar, quase à força, os espaços sociais e as esferas públicas a que todo cidadão e cidadã têm direito; a escola, sobretudo no nível superior, é o sensor mais evidente das tensões sociais e da estratificação social injusta; é, ao mesmo tempo, o gerador e o medidor das desigualdades sociais no Brasil; assim, somente pela educação escolar as injustiças e desigualdades sociais históricas poderão ser amenizadas senão corrigidas; as políticas afirmativas, com reservas de vagas e com processos seletivos diferenciados (surdos, cegos etc) e com a criação de espaços formativos também diferenciados (licenciaturas interculturais de formação de docentes indígenas e outras) e, por fim, o Enem e a quase totalização de adesões ao SISU, trazem à tona, com garantia de direito de ser e de estar, toda a bastardia que a nação manteve escondida até então; as classes e os grupos historicamente privilegiados/as não perderam nem vão perder seu espaço; perderam a exclusividade e alguns índices de distinção, mantenedores da exclusividade histórica; isso bastou para que essas classes e esses grupos se rebelassem e externassem seus verdadeiros sentimentos, e isso é bom, é muito bom; finalmente, o/a brasileiro/a está tirando sua máscara de "homem cordial" e mostrando sua cara. <<https://www.youtube.com/watch?v=qsbghsXrEVE&gt>


CONCEPTOS FUNDAMENTALES DEL PENSAMIENTO DECOLONIAL Y OTROS PARADIGMAS CRITICOS DE LA MODERNIDAD

http://metiendoruido.com/2012/09/conceptos-fundamentales-del-pensamiento-decolonial-y-otros-paradigmas-criticos-de-la-modernidad/  

domingo, 29 de março de 2015

AINDA ASSIM, EU ME LEVANTO

Você pode me riscar da História 
Com mentiras lançadas ao ar.
Pode me jogar contra o chão de terra,
Mas ainda assim, como a poeira, eu vou me levantar.
Minha presença o incomoda?
Por que meu brilho o intimida?
Porque eu caminho como quem possui
Riquezas dignas do grego Midas.
Como a lua e como o sol no céu,
Com a certeza da onda no mar,
Como a esperança emergindo na desgraça,
Assim eu vou me levantar.
Você não queria me ver quebrada?
Cabeça curvada e olhos para o chão?
Ombros caídos como as lágrimas,
Minh'alma enfraquecida pela solidão?
Meu orgulho o ofende?
Tenho certeza que sim
Porque eu rio como quem possui
Ouros escondidos em mim.
Pode me atirar palavras afiadas,
Dilacerar-me com seu olhar,
Você pode me matar em nome do ódio,
Mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.
Minha sensualidade incomoda?
Será que você se pergunta
Porquê eu danço como se tivesse
Um diamante onde as coxas se juntam?
Da favela, da humilhação imposta pela cor
Eu me levanto
De um passado enraizado na dor
Eu me levanto
Sou um oceano negro, profundo na fé,
Crescendo e expandindo-se como a maré.
Deixando para trás noites de terror e atrocidade
Eu me levanto
Em direção a um novo dia de intensa claridade
Eu me levanto
Trazendo comigo o dom de meus antepassados,
Eu carrego o sonho e a esperança do homem escravizado.
E assim, eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto.
ANGELOU, Maya. Still I Rise. Tradução de Mauro Catopodis.

domingo, 1 de março de 2015

Emília escandalosa, um perigo à moral e aos bons costumes.

Emília Amália Pinto de Magalhães, a mãe de Aluísio Azevedo, era uma bela rapariga branca, nascida em Lisboa, filha de um bem sucedido comerciante, viveu sua adolescência e juventude em São Luís do Maranhão, protegida e resguardada tal qual um ostensório de ouro, no aguardo de um "bom casamento" (bom para o pai dela claro). Antes de completar os dezessete anos foi apresentada ao seu noivo, um português branco e esperto nos negócios, garantia de uma vida segura e confortável, dentro dos padrões de conforto e decência da sociedade luso-brasileira do século XIX. Obediente, submissa e resignada, Emília Amália aceitou seu desígnio, apesar do sofrimento que sentia. Percebendo o que significava ser casada e percebendo-se imersa em um típico casamento tradicional, pautado na moral e nos bons costumes machistas brasileiros, Emília Amália surpreendeu seu marido, sua família e toda a "boa sociedade" de São Luís ao abandonar o marido, levando consigo a filha pequena, primogênita do casal. A sociedade ficou escandalizada com o atrevimento da senhora dona Emília Amália e passou a repudiá-la, a rechaçá-la, atentando inclusive contra sua vida, afinal de contas uma mulher com esse tipo de comportamento era uma ameaça aos valores e bons costumes daquela gente tão amante da retidão. O preço do pecado é a morte, pois então, morte à pecadora! Como tudo passa e já naquele tempo a memória dos brasileiros e das brasileiras já era curta, tempos depois, a poeira se assentou e dona Emília Amália, de volta à "boa sociedade", conheceu o vice-cônsul de Portugal, o senhor David Gonçalvez de Azevedo, que a tomou por esposa, passaram a morar amancebados no centro da cidade, provocando outro escândalo, atraindo novamente a hostilidade da sociedade maranhense contra Emília Amália. Apesar de o vice-cônsul ser viúvo, tiveram de viver amancebados, pois a senhora ainda era casada com seu abandonado marido. Meus mais profundos respeitos à dona Emília Amália e a seu amásio, o senhor David Azevedo, por todos os escândalos causados à sociedade de São Luís do Maranhão, pleno século XIX. (Tânia Rezende, em Confissões de Bertoleza).

sábado, 4 de outubro de 2014

Toda feminista é uma mulher desrespeitada

Para dialogar com o texto "Toda feminista é mal amada", disponível em: . Acesso em: out. 2014.

Em tempos de reconstrução das identidades, é necessário desconstruir verdades, ou seja, os discursos que circulam publicamente e são reproduzidos e repetidos, nunca questionados. É preciso desafiar esses discursos, buscando contra significados para seus conceitos e suas máximas. Pensando nisso e refletindo sobre minhas experiências e sobre minhas observações etnográficas sistemáticas, preparei este texto, inspirada pelo texto "Toda feminista é mal amada", para promover um diálogo, principalmente, com mulheres situadas em uma dimensão espaço-temporal marcada por estratégias humilhantes de diminuição da mulher. Por isso, vou começar com algumas pérolas machistas, consideradas verdades e usadas como arma, principalmente contra as poderosas.

Você não sabe mexer com homem ou você não sabe como tratar um homem. 

Acho que toda mulher está acostumada a ouvir as duas (des)apreciações de homens diferentes ou do mesmo homem em momentos diferentes. Todas nós conhecemos esse antigo aconselhamento: você toma as decisões, resolve tudo, mas sempre faça de conta que é ele quem está mandando. É educação feminina para a manipulação do homem. Há ainda mil uma estratégias para agarrar e para segurar o homem . O homem nunca tem de fazer nada para segurar a mulher. É mais ou menos por aí. Vamos às desconstruções e contra-leituras.

O que significa saber ou não mexer com homem? Trata-se de saber, mesmo? Não há escolha? Ou a mulher sabe ou ela não sabe? E se, mesmo sabendo, a mulher não quiser? Ela não tem o direito de não querer? O resultado das minhas observações, de algumas entrevistas e rodas de conversas, além das muitas leituras que fiz sobre o assunto, mostra que a maioria dos homens tem um sentido para isso, mas as mulheres têm muitos sentidos, orientados por seus objetivos com a conquista. Fica a dica, aqui, acordem, seres do milênio passado: toda mulher sabe e muito bem mexer com homem, se ela quiser, quando ela quiser e com quem ela quiser. Antes de dizer a uma mulher que ela não sabe mexer com você, pense duas vezes pra não pagar mico, pois pode ser que ela, de fato, não quer nada com você; e pode ser que se trata de uma mulher que exerce o seu direito de não querer um homem, de não querer se sacrificar nem se anular para segurar o homem, que já não lhe atrai em nada. Isso é um direito, sim. Não é só homem que enjoa de mulher com o tempo, a mulher também enjoa do homem, só que ela é preparada para se anular e aguentar a situação, o homem, não. 

Conheço e conversei com várias mulheres que têm verdadeiro asco de seus maridos, mas têm de aguentar por Ns razões; outras nem sabem se gostam ou não, sempre foi assim, sempre será. Conheci mulheres que foram abandonadas por seus maridos por volta dos 40 anos de idade, depois de 15, 20 anos de casamento e dedicação (anulação) e que nunca tiveram um orgasmo na vida; outras que se separaram dos maridos por não suportarem a humilhação e os maus tratos, além de terem se cansado da mesmice do casamento. A maioria delas, com a autoestima em frangalhos, se recolheu à sua insignificância de mulher ruim de cama, que não sabe mexer com homem, que não soube segurar o marido; algumas, em número bem menor, se lançaram na vida, com medo e tudo, com autoestima destruída, mas foram. 

O que essas mulheres mais destacam em suas vidas depois da separação é a questão sexual, de como o sexo pode ser bom; duas delas descreveram, fascinadas, com riqueza de detalhes, como foi seu primeiro orgasmo: uma delas, professora universitária, com pós-graduação, estava com 40 anos de idade, era casada há 8 anos, e tudo aconteceu em uma relação virtual, com um homem 3 anos mais velho que seu marido, que há época estava com 37 anos. Depois disso, ela se lançou na vida real. Seu primeiro amante foi um homem de 55 anos de idade, ela, então, conclui: pela primeira vez na minha vida, eu vi como o homem fica quando ele realmente está com tesão por uma mulher, pela primeira vez eu me senti desejada, cuidada, amada e não apena comida, de quatro em quatro meses, por cumprimento de obrigação. Ela ainda ficou no casamento por mais 4 anos e só se separou porque descobriu que o então marido, embora mulherengo, desfilando publicamente sempre com moças jovens e bonitas, gostava mesmo era de rapazes, tudo não passava de uma farsa. Agora, ela está namorando e tendo muitos orgasmos, diz. A outra, com ensino médio incompleto, moradora do interior, distante da capital, enfermeira, teve seu primeiro orgasmo aos 38 anos de idade, depois de ser abandonada pelo marido de 45 anos, que estava namorando sua secretária, de 23 anos de idade, com curso superior: foi uma separação doída, professora, ele ficava me humilhando, falando que eu não prestava na cama, que num era mulher pra ele, que ele queria uma mulher de verdade; que mulher de 30 tem de ser trocada por duas 15, mas eu com quase quarenta, tinha ser trocada por duas de vinte. Esse discurso das idades pode ser contra-lido, atentando para a necessidade de mais de uma de 20, por exemplo, para substituir uma de 40, o que equivale a dizer que o valor da mulher de 40 é superior ao valor da mulher de 20. Enfim, na verdade, aquele homem estava desrespeitando as duas mulheres, a jovem e a madura. Mas, a jovem vê apenas as vantagens que ela tem aos 20 anos, o resto é desespero de mulher velha, abandonada e despeitada. 

É interessante a história de outra mulher que aos 18 anos se envolveu com seu professor (poderia ser o patrão, essas histórias são corriqueiras), um homem de 45 anos, casado, com dois filhos pequenos. O professor deixou sua família e foi viver com a jovem aluna. Ela teve com ele duas filhas e aos 28 anos de idade foi abandonada por ele, com as duas meninas ainda pequenas, ele já estava com outra aluna, de 20 anos: naquele momento, eu soube  o que a ex-mulher dele sentiu quando ele ficou comigo, naquele momento, eu soube o que eu tinha feito pra ela e pros filhos dela, eu chorei de pena dela e de mim, só que eu estava com 28 anos e a outra, coitada, foi deixada com mais de 40, praticamente sem chance na vida. Eu procurei a ex-mulher do dito professor, ela, aos quase 60 anos, está casada. Conheceu seu atual marido aos 45 anos, 5 anos depois de se separar: é uma relação saudável, com seus altos e baixo, mas muito respeitosa e equilibrada, ele foi quem me deu amor e me ensinou a fazer sexo e ter prazer e a gostar novamente de homem e de mim, ele é o pai que meus filhos tiveram, um companheiro. 

Ademais, há homens que são sexualmente mais ativos e há homens sexualmente mais passivos. Isso não quer dizer que os mais passivo sejam homossexuais, não confundamos as coisas. Conversei com vários deles e me relacionei com alguns, tanto + ativos quanto + passivos. Os + passivos são os dependentes de mulheres que sabem mexer com homem, a mulher tem de estimular, preparar e fazer quase tudo sozinha. Todos os homens, com quem conversei ou me relacionei, que podem ser caracterizados como + passivos são mais passivos em outros aspectos da vida, dependem do outro, seja mulher ou homem, pra tudo. Muitos deles declaram, por meio de algumas variantes, que mulher boa é a santa na rua e puta na cama; a mulher boa aceita tudo e faz tudo, sem cobrar nem encher o saco nem reclamar. Esses homens, todos casados, alguns já no terceiro casamento, se gabam de sempre ter tido muitas mulheres, porque casamento mata a vontade do homem, aí tem de ciscar fora, no começo, a mulher é até boa de serviço, depois ela parece que desanima, depois que tem filho então... aí tem que ir pras prima, né (risos), porque as prima são danada.

O homem + ativo pode até ser mulherengo também, uma coisa não tem nada a ver com a outra, mas ele comparece regularmente e dá conta do recado, sem essa de mulher ter de saber mexer com ele. Todo mundo, um dia pode estar mais pra baixo ou mais pra cima; pode querer em um dia um cafuné e no outro uma pegação. O interessante então é a relação baseada na troca e não na prestação de serviços, em que um serve e outro é servido. O perfil vampiro, sugador é também o perfil + passivo. É esse que se assusta com as poderosas, com as seguras. O + ativo não se assusta com nada e caiu na rede, é peixe, tá valendo.        


      

domingo, 20 de outubro de 2013

"Decifra-me ou devoro-te"



O filho que trai é pai do filho que vem





Vêm o neto e o bisneto
Filho e neto que se confundem no mesmo bisneto

domingo, 28 de julho de 2013

V SIMELP 2015 EM LECCE ITÁLIA

 O V SIMELP será em Lecce, na Itália, entre 6 e 9 de outubro de 2015, sob a coordenação de Gian Luigi de Rosa e Katia de Abreu Chulata
http://simelp.it/

SIMPÓSIO 02 – CONFIGURAÇÃO DO SISTEMA PRONOMINAL PORTUGUÊS

Coordenadores: 
Tânia Ferreira Rezende – Universidade Federal de Goiás taniaferreirarezende@gmail.com
Roland Schmidt-Riese – Katholische Universität Eichstätt-Ingolstadt roland.schmidt-riese@ku-eichstaett.de
PARA LER O RESUMO, CLIQUE AQUI: http://simelp.it/node/22
SIMPÓSIO 57 - PRÁTICAS INTERCULTURAIS DE ENSINO DE PORTUGUÊS 
Coordenadoras: 
Tânia Ferreira Rezende – Universidade Federal de Goiás taniaferreirarezende@gmail.com
Shirley Eliany Rocha Mattos – Universidade Estadual de Goiás shirley.rmattos@gmail.com
PARA LER O RESUMO, CLIQUE AQUI: http://simelp.it/node/73
Lecce, a principal cidade da Península Salentina, fica na região da Puglia, província de Lecce, com aproximadamente 95.907 habitantes.
Lecce-Itália Lecce faz fronteira com Arnesano, Cavallino,Lequile, Lizzanello, Monteroni di Lecce, Novoli, San Cesario di Lecce, Squinzano, Surbo, Torchiarolo (BR), Trepuzzi e Vernole. Fundada há mais de 2000 anos pelos Messápios, foi parte do Império Romano, do Bizantino, do Normando e do Espanhol. É conhecida como a Florença do Sul devido à riqueza do Barroco em todo o centro histórico, sendo de realçar a Igreja de Santa Croce (Chiesa di Santa Croce) e praça da Catedral (Piazza del Duomo). Possui também importantes ruínas da Roma Imperial, como o anfiteatro do século II d.C.

Diz a lenda que a cidade Sybar já existia antes da guerra de Tróia. Tendo sido fundada pela tribo itálica Messápios e mais tarde ocupada pelos Lapyge e sucessivamente conquistada no século III a.C. pelos Romanos, passando a chamar-se Lupiae. Depois da queda do Império Romano do Ocidente, Lecce foi saqueada pelos Ostrogodos, caiu em poder do Império Romano do Oriente no ano de 549 d.C., sob o qual ficou durante 5 séculos, com breves incursões dos Sarracenos, Lombardos, Húngaros e Eslavos. Com a conquista Normanda no século XI, Lecce volta a ganhar importância nas rotas comerciais. No século XV, Lecce torna-se uma das mais importantes cidades do sul da Itália e em 1630 dá-se início à construção de vários edifícios religiosos que iriam dar o aspecto atual barroco da cidade. Em 1656, Lecce foi assolada pela peste causando algumas vítimas. O baixo número de vítimas da peste foi atribuído à intervenção miraculosa de Santo Oronzo, tendo este sido proclamado padroeiro da cidade. 

Lugares para visitação:
Igrejas

Basilica de Santa Croce.
  • Basílica de Santa Croce. Iniciada a construção em 1353, mas apenas terminada em 1695. A igreja apresenta uma fachada ricamente decorada. Formando parte do mesmo edifício ao lado encontra-se o Palácio do Governo, antigamente um convento.
  • O Duomo (Catedral) uma das mais impressionantes da Itália. Inicialmente construído em 1144 e reconstruído em 1230.
  • Igreja de Sant'Irene
  • Igreja de Santa Teresa
  • Igreja de Sant'Anna
  • Igreja de San Giovanni Battista ou do Rosario construída em 1690-91. É de realçar o portal principal com a estátua de San Domenico di Guzman e os ricos altares em todo o interior.
  • Igreja del Gesù
  • Igreja de Santa Chiara reconstruída em 1687
  • Igreja de San Niccolò dei Greci, conhecida como igreja grega
  • Igreja de San Matteo que apresenta un estilo de barroco do centro de Itália
  • Igreja de Santa Maria degli Angeli ou de San Francesco da Paola
  • Igreja de San Francesco della Scarpa
  • Igreja dos S.S. Niccolò e Cataldo é um exemplo da arquitectura Italo-Normana. Fundada em 1180 por Tancredo de Sicilia. Em 1716 a fachada foi reconstruida tendo-se adicionado numerosas estátuas, mas mantido o portal original. O interior é composto pela nave principal e duas laterais, arcos ogivais e uma cúpula central. Os frescos nas paredes foram realizados nos séculos XV-XVII.
Praças
  • Praça de Santo Oronzo, deve o seu nome ao padroeiro da cidade. No centro da praça encontra-se a coluna doada pela cidade de Brindisi onde se encontra a estátua de Santo Oronzo, esta coluna é uma de duas colunas que marcavam o final da Via Ápia. De um lado da praça encontra-se a capela de São Marcos, testemunha da importante colônia veneziana que existia na cidade
  • Praça da Catedral (Duomo), com a Torre do Sino, medindo 70 metros; o Palácio Episcopal, construído no século XV, e o antigo Seminário, atualmente, Museu de Arte Sacra.

Edifícios Romanos

Anfiteatro Romano, construído no século II d.C., situado ao lado da praça de Santo Oronzo (Padroeiro), possuía mais de 25 000 lugares, apenas metade se encontra visível. 
Anfiteatro Romano

  • Teatro Romano

Portas da cidade antiga

Porta Napoli com o arco do Triunfo construído em 1548 em honra a Carlos V

Porta Rudiae que deve o seu nome á antiga cidade messápica que exista próxima a Lecce 

Porta San Biagio

Museus 

Museo Archeologico Provinciale Sigismondo Castromediano 

Outros monumentos 

Obelisco construído em 1822 em honra de Fernando I das Duas Sicílias

Torre del Parco é um dos símbolos medievais da cidade de Lecce, construído em 1419.

Castelo Carlo V construído em 1539-49

Aprenda ou aprimore seu italiano no Centro de Línguas da UFG: 
http://www.letras.ufg.br/centrodelinguas/
https://www.facebook.com/cl.ufg?fref=ts