quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A decolonização do pensamento passa pela decolonização epistemológica que só pode ser construída pela educação escolar


Há mais de quatro décadas que intelectuais latino-americanos/as defendem a urgente revolução epistemológica para promover a decolonização do pensamento. Essa revolução está sendo preparada e tentada, mas, da mesma forma, está sendo também fortemente coibida. Um dos principais entraves encontrados é a robotização do pensamento, massificada pela mídia. A formação social de opinião é uma luta desigual e injusta, em que a escola, com professores/as, com suas imagens desgastadas e desqualificadas socialmente, digladia com a mídia, com seus mitos e celebridades, idolatrados socialmente. É evidente que vence a robotização, as ideias e opiniões programadas.
Para ilustrar, eu cito o fato de as pessoas, muitas delas instruídas, ou pelo menos escolarizadas, repetirem que a Hillary Clinton não pode ser eleita presidente dos EUA, que os EUA não merecem essa presidente, afinal “aqueles seus e-mails...”, e o argumento não passa disso. Se questionadas sobre o teor ou a gravidade do teor de tais e-mails, nada ou muito pouco sabem dizer (eu poderia listar inúmeros exemplos exatamente iguais, inclusive sobre a situação política brasileira, mas é dispensável). Essas pessoas são meramente seres robotizados, reproduzindo, automatizadamente uma programação midiática. Essa é a situação social, mas o mesmo tipo de reprodução, considerada, claro, mais sofisticada, ocorre também na academia. A única diferença, nesse caso, entre a mídia e a academia, segundo Edgar Morin, em Introdução ao pensamento complexo, é que [e]nquanto os mídias produzem a baixa cretinização, a Universidade produz a alta cretinização (MORIN, 2005, p. 12).
Nas universidades, os templos sagrados da construção do conhecimento científico, também são programados seres robotizados por outros seres robotizados, com um agravante: nas universidades, há a autorização e a legitimação da ciência. A robotização universitária é científica, é teórica, tem rigor metodológico, ou seja, está enquadrada. Por isso, nas universidades, os/as profissionais, estão autorizados/as a formar e a discursivizar uma base teórica capaz de transformar a educação básica para, assim, transformar a sociedade.
A triste constatação é que, devido à colonialidade epistemológica, sabemos que nas universidades, a maioria dos/as profissionais não é capaz de transformar nem mesmo seu próprio olhar, sua própria visão de mundo; não é capaz sequer de questionar sua epistemologia eurocentrada. Então, como poderão esses/as profissionais transformar a sociedade? A grande maioria dos/as profissionais universitários/as é incapaz de se abrir e, pelo menos, de tentar ver os fatos de forma diferente do que ordenam as teorias e os/as teóricos/as que moldam seus pensamentos. Eles/Elas são seres incapazes de se criticarem a partir de outras formas de ver/ler o mundo. A grande maioria ainda sequer sabe que existe Filosofia fora da Europa, conforme critica Dussel:
Bueno, uno ha estado entregado a este mundo de la filosofía desde los quince años de edad y ve la complejidad de este lenguaje de lenguajes, este metalenguaje muy complejo, que es una cierta visión orgánica, argumentada, histórica de la realidad. Es lo que va detrás de siglos, del pensamiento de Platón en Grecia, de Confucio en China o del Upanishad en la India. Y lo que estamos descubriendo es un pensamiento crítico que en América Latina comenzó hace cuarenta años. Cuando planteamos una filosofía latinoamericana de liberación se le quiso dar un sentido anecdótico. Lo profesores en Estados Unidos y Europa lo veían como el producto de una incultura, no de una cultura latinoamericana. Teníamos que golpear las puertas de las universidades, y nos rechazaban, no nos permitían ser profesores. Ahora (esta doctrina) ha cobrado una fuerza y el pensamiento crítico debe dar un horizonte de largo plazo, pues una revolución que no llega a una descolonización del pensamiento, sigue siendo colonial. Ni la izquierda esta vacunada de seguir siendo colonial. Hasta los sectores más vanguardistas, entre comillas, porque son dogmáticos.
La tarea es difícil, pero ya la empezamos. Lo que debemos es tomar conciencia de cosas que estamos elaborando, que no dependen de EEUU o Europa, es algo nuestro porque partimos de una realidad distinta, hemos aprendido a pensar y ahora tenemos que ser responsables y hacer cambios mucho más profundos. Debemos tomar conciencia de que tenemos en la cabeza, en el fondo, una interpretación eurocéntrica de todo, tan profunda que cuando uno da ciertos ejemplos, la gente se espanta porque cómo es posible que yo viera las cosas de un modo tan unilateral, a la europea, negándome a mí mismo y justificando la dominación que sufría. Debemos entender que el último nivel de la dominación, y al mismo tiempo de la transformación histórica, es una cierta visión del mundo.

A única preocupação segura desses/as intelectuais é com a manutenção da forma, das regras e da disciplina (obediência). Sim, pois fora das caixinhas do mais do mesmo não conseguem entender, logo, não sabem o que é e não sabem o que fazer. Pessoas que não sabem pensar, tornam-se escravas das regras e das normas. Por isso, se o/a locutor/a (os/as pares, os/as estudantes) não reproduzir os/as autores/as consagrados/as, portanto, conhecidos/as, o cânone, será severamente penalizado/a por seus/suas interlocutores/as. Enfim, a ciência é o culto à “inteligência cega” (Morin).

Por tudo isso, é urgente a decolonização do pensamento, insisto. Dussel, considerando os processos e regimes capitalistas, econômicos, e não somente a dominação política e administrativa, defende que precisamos ainda nos “descolonizar”, que ainda estamos sob a colonização. Conseguimos a independência, não somos colônia mais, nem de Espanha nem de Portugal, só para ficar nas ex colônias luso-espanholas. Entretanto, somente mudamos de colonizador. Passamos para a colonização da Inglaterra e depois, até o momento, para a colonização dos EUA:

Y a eso hoy le hemos llamado descolonización epistemológica. Epistéme significa ciencia, por lo que sería una descolonización filosófica, científica y tecnológica. Tenemos que ver que nuestro mundo latinoamericano, el que tenemos por delante, es colonial. No debemos seguir creyendo que ya en 1810 o 1820 nos liberamos de España y pasamos a ser independientes, pues caímos en manos de Inglaterra y EEUU, y por eso, como lo habían dicho Mariátegui y Martí, nos toca la segunda emancipación. Estamos en una situación colonial agobiante, pero mucho más sutil que antes y mucho más extractiva de nuestras riquezas. Los españoles nos robaron pequeñas cosas. Ahora nos roban hasta el alma. La dominación no es que haya un soldado en un destacamento español a cientos de kilómetros, sino que se metan en nuestras camas con la televisión y la propaganda. Por ejemplo, la oposición a esta Revolución Bolivariana es no solo de un conservadurismo económico, político, burgués, liberal: es histórica, cultural, y hasta espiritualmente y cristianamente colonial, no saben pensar lo nuestro, desprecian lo nuestro. Y el mismo pueblo a veces, tal es la influencia de la educación, los medios de comunicación, la televisión, llega a despreciarse a sí mismo y anhela salir. No podrá hacerlo, tendrá que aprender a revalorizar lo propio y a partir de allí construir un proyecto de felicidad.


Em outra vertente política, e é essa a que sigo, somos, nas américas, países independentes, política, administrativa e economicamente. Todavia, não temos independência epistemológica, o que nos mantém presos/as a valores e princípios da colonização: isso é a colonialidade. A colonialidade se mantém na constituição do que e como somos – colonialidade do ser; no que e como pensamos – colonialidade do pensamento; na nossa visão de mundo, em como significamos, interpretamos e representamos o mundo – colonialidade epistêmica e colonialidade da linguagem. Essas colonialidades não são fragmentadas, são sempre interseccionadas. Estão na base de nossas (des)obediências diante da ordem do mundo. A colonialidade epistêmica é ainda a certeza e a manutenção dos modelos científicos eurocêntricos na construção do conhecimento (matrizes, currículos, projetos e tarefas escolares, teorias e metodologias etc). 

2 comentários:

  1. Infelizmente, a colonialidade epistêmica ainda é o eixo forte do exercício de "domesticação" a partir do saber.
    Obrigadopor compartilhar essa reflexão necessária.

    Abraços,

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  2. Boa tarde, li o texto e apresento algumas afinidade com as ideias apresentadas. Muito me agrada a tentativa de retirar o pensamento eurocêntrico apresentado na cabeça dos professores que, junto a este fator, fazem uma análise mais descritiva e pouco intervencionista na realidade.

    Mas a crença no Estado(muito me parece a ideia de Boaventura de Souza Santos da democracia de alta intensidade e um pensamento da política Sul-Sul) uma ideologia segunda a visão marxista.

    A universidade(órgão burocrático ligado ao Estado portanto,reproduz as ideologias ligadas e pautadas a ele) foi uma criação europeia e a sua fragmentação em inúmeros cursos mostra que por mais que se queira lutar haverá um limite de consciência e ações.

    Então o que propor?

    A proposição que tenho interesse é por mudanças sociais de forma direta, sem ações institucionais. Por uma educação libertária aos moldes de Lapassade e Gallo que negam a ação benéfica do estado e partem para uma consciência geral da sociedade(Lapassade) e as formas de fragmentação encontradas e como atuar(Gallo).

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